
Você já teve a sensação de que os anos recentes passaram num piscar de olhos? Que 2020 parece ao mesmo tempo distante e incrivelmente próximo? Psicólogos afirmam: isso não é ilusão coletiva nem simples nostalgia. O tempo não acelerou. O que mudou foi a forma como o cérebro humano registra a vida.
Antes dos anos 2000, a existência tinha um ritmo mais orgânico. As estações do ano pareciam distintas, os períodos da vida eram bem delimitados e a infância parecia longa — não por acaso, mas por neurociência.
O cérebro vivia experiências completas, profundas e contínuas. Havia menos interrupções, menos estímulos simultâneos e mais presença.
Com a virada do milênio, algo começou a se romper silenciosamente. A popularização da internet, dos e-mails, dos smartphones e, mais tarde, das redes sociais com rolagem infinita criou um ambiente de estimulação constante.
O cérebro humano, que evoluiu para lidar com escassez de informação, passou a viver em excesso. E excesso não gera memória — gera ruído.
Pesquisas conduzidas por psicólogos de instituições como a Universidade de Stanford e a University College London (UCL) mostram que, quando o cérebro está sobrecarregado, ele reduz a formação de memórias profundas.
O hipocampo, estrutura essencial para registrar experiências significativas, passa a trabalhar de forma superficial. E quanto menos memórias marcantes criamos, mais curto o tempo parece em retrospecto.
O impacto invisível da pandemia na percepção do tempo
Após 2020, essa distorção temporal se intensificou drasticamente. A pandemia não alterou apenas rotinas; ela reprogramou a percepção de tempo em escala global. Estresse crônico, medo constante, isolamento social, monotonia e incerteza passaram a coexistir. O cérebro entrou em modo de sobrevivência.
Em situações prolongadas de estresse, o córtex pré-frontal — responsável pelo planejamento e pela construção do futuro — reduz sua atividade. Ao mesmo tempo, o hipocampo deixa de “marcar” eventos como relevantes.
O resultado? Dias, semanas e até anos se fundem em um borrão indistinto. É por isso que tantas pessoas dizem: “2020 parece que foi ontem”.
Além disso, o tempo psicológico desacelera quando há novidade: novos lugares, pessoas, desafios e mudanças. Depois de 2020, houve menos viagens, menos variações e menos marcos simbólicos. A repetição constante comprime a memória. O estresse não apenas apaga o passado — ele achata o futuro.
Como recuperar o tempo que parece perdido
Psicólogos recomendam um caminho claro, ainda que contraintuitivo: fazer menos coisas, mas com mais profundidade. Reduzir notificações, eliminar estímulos constantes e buscar novidade real — não digital. Mudar de ambientes, criar rituais, estabelecer marcos de memória.
Do ponto de vista psicológico, o tempo só ganha densidade quando há atenção, significado e envolvimento emocional. Isso exige escolhas conscientes: desacelerar o ritmo, reduzir a fragmentação causada por tanta informação e permitir que o cérebro volte a registrar experiências de forma profunda.
Quando criamos momentos com começo, meio e fim — seja por meio de novas aprendizagens, mudanças de ambiente, conversas significativas ou rotinas intencionais — o hipocampo volta a atuar plenamente, organizando a vida em marcos memoráveis.
Assim, o tempo deixa de ser uma sucessão indistinta de dias e passa a ser novamente percebido como história, continuidade e vivência real, devolvendo a sensação de que a vida não está apenas passando, mas sendo verdadeiramente experimentada.
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