
Tudo começou com um movimento quase imperceptível no dedão do pé. Para qualquer pessoa, pode parecer insignificante — mas para um paciente que vivia há anos sem sinal de movimento, foi uma revelação de que sua própria medula espinhal estava, de alguma forma, respondendo a estímulos.
Esse momento, que poderia passar despercebido, transformou-se em um marco de esperança em um campo médico onde verdadeiras respostas ainda são raras. Isso por que, as lesões medulares são algumas das condições mais desafiadoras para a medicina moderna.
O que acontece quando ocorre uma lesão medular?
Quando a medula espinhal é gravemente danificada, sinais nervosos não conseguem passar do cérebro para o corpo, resultando em perda permanente de movimentos e sensibilidade em muitas pessoas.
Tradicionalmente, tratamentos focam em fisioterapia e gerenciamento de complicações, mas a capacidade de regenerar tecido neural permanece extremamente limitada.
Estudos científicos revisados por pares apontam que abordagens regenerativas — incluindo biomateriais, células-tronco e estimulação elétrica — são promissoras, mas ainda estão em estágio experimental e com eficácia variável.
No entanto, no Brasil, uma equipe liderada pela cientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pode estar prestes a virar essa página.
Após quase 30 anos de pesquisa, Tatiana e sua equipe desenvolveram uma substância chamada polilaminina — uma forma estabilizada de laminina, proteína natural envolvida na estrutura das células nervosas — que tem mostrado resultados surpreendentes tanto em modelos animais quanto em estudos com seres humanos.
O tratamento experimental consiste em injeções dessa molécula diretamente na medula lesionada, seguido de fisioterapia intensiva.
A ideia é que a polilaminina atue como um “suporte biológico” para os neurônios, facilitando a regeneração de axônios, os finos prolongamentos que transportam sinais elétricos entre o cérebro e o corpo. Essa recuperação axonal é exatamente o que permite o retorno de movimentos e sensação.
Os resultados iniciais deste estudo são surpreendentes. Em um pequeno grupo de pacientes com lesões medulares completas — ou seja, sem função motora ou sensorial — vários indivíduos começaram a apresentar sinais de recuperação após o tratamento.
Um paciente conseguiu mover o dedão do pé, um sinal que indica que comandos do cérebro estavam, de fato, percorrendo de volta o caminho nervoso interrompido há anos. Outros recuperaram movimentos mais amplos, chegando até mesmo a retomar a marcha com ajuda.
Esses avanços aliam-se à ciência global em busca de soluções regenerativas. Pesquisas internacionais também exploram eletroestimulação epidural, interfaces neurais e abordagens combinatórias para restaurar funções após lesões severas — embora muitas ainda estejam em fases iniciais ou em modelos animais.
É importante lembrar que, apesar dos resultados promissores, a polilaminina ainda está em fase experimental. A pesquisa foi autorizada recentemente por órgãos reguladores, como a Anvisa, para avançar para testes clínicos mais amplos antes que possa ser adotada como tratamento padrão.
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Mesmo assim, a resposta observada em pacientes que já receberam o tratamento está alimentando otimismo no meio científico e entre pessoas com lesões consideradas irreversíveis.
No epicentro dessa revolução está a dedicação de Tatiana Sampaio — e por trás de um simples movimento no dedão do pé, a possibilidade real de transformar a vida de milhares de pessoas no mundo inteiro.
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Imagem de Capa: Instagram UFRJ/Canva

