Nada como a virada de ano para refletirmos sobre nossas vidas, sobre os aspectos positivos e negativos que ficaram e o que almejamos para essa nova etapa. Ao fazermos tal análise, é muito natural que, por detrás de todo e qualquer desejo que tenhamos para 2020, apareça um desejo genuíno que está lá, escondido… O desejo pela Felicidade! Me parece que a Felicidade é algo inútil. Pressinto que você possa estranhar tal adjetivo, mas peço-lhe paciência e mais, peço que analise junto comigo tal afirmação, por favor, não me abandone.

As coisas úteis têm Valor fora delas, justamente por sua utilidade.

Quer um exemplo? A cadeira só é útil se servir de assento, o óculos só é útil se servir aos olhos, o edredom só é útil se servir para aquecer no frio… Mas e a Felicidade; ela serve para quê? Geralmente a temos como meta de vida, condição a ser alcançada no final, depois de várias etapas que podem ser genéricas à maioria das pessoas como: estudar, se formar, namorar, casar, ter filhos, ter a casa dos sonhos, o emprego dos sonhos e lá na frente ser feliz. Mas insisto tal como queria a escritora Clarice Lispector: “- Afinal, ser feliz pra conseguir o quê?” Talvez a Felicidade seja a mais superior de todas as condições humanas, o auge, o topo, o fim último de uma vida boa, tal como queria o grande Aristóteles ao dizer que a finalidade do ser humano é a Eudaimonia, ou seja: se auto-realizar, ser feliz!

A felicidade não pode estar presente o tempo todo porque senão morreríamos de Felicidade, aliás só a notamos pela sua ausência, pela sua falta, é como uma filosofia dos contrários: só percebemos o dia por causa da noite, a subida por conta da descida, a alegria porque estamos tristes, o desejo do sono por conta do cansaço… 

E como então ser Feliz? Pergunta complexa para que eu lhe responda, pois não tenho o gabarito, me desculpe, não tenho ‘As 10 lições para ser feliz’, ou ‘Os 12 hábitos das pessoas altamente felizes’… Penso que cada ser humano é único e não quero eu ser um ‘guru’ que lhe diga o que tem que fazer para ser feliz. “Conheça-te a ti mesmo”, como queria Sócrates, afinal você é o principal responsável pela sua vida, é dever seu saber o que lhe agrada e o que lhe entristece, ano novo pressupõe novos hábitos! Não faltarão charlatões e picaretas para nos dizer e mostrar um caminho para sermos felizes. Sócrates diz ao Irmão de Platão, Adimanto: “- Eu não sei o que você deve fazer para ser feliz, mas minha única certeza é a de que não há um único gabarito para todos”.

Felicidade em nossa época está muito associada ao consumo e ao desejo, ser feliz é ter, bem como dizia o sociólogo Jean Baudrillard: “- Consumo logo existo!” , isso geraria um falso senso de pertença, reconhecimento e participação social. É o que Platão e Schopenhauer expõem sobre o desejo, segundo Platão desejamos e amamos aquilo que não temos e quando adquirimos já não queremos mais. Para Schopenhauer:

“A vida humana transcorre entre o querer e o conquistar. O desejo, por sua natureza, é dor: a satisfação bem cedo traz a saciedade. O fim não era mais que miragem: a posse lhe tolhe o prestígio; o desejo novamente se apresenta sob outra forma: o nada, o vazio, o tédio”. 

Se lhe servir de inspiração, leia um livro intitulado ‘Carta a Meneceu; sobre a Felicidade’, nele o filósofo Epicuro expõe como se sentir feliz: sentindo prazer! Mas muita calma aqui, pois o livro foi escrito V séculos a.C, portanto, buscar o prazer segundo ele não tem nada a ver com ser rico, ter cobertura na praia, ter carro do ano, nem celular de última geração, muito menos dar festas com prostitutas ou beber até cair, não, nada disso! O prazer que garante a felicidade segundo Epicuro é o que advêm das coisas simples, momentos especiais ao lado de pessoas especiais (incluindo você com você na solidão se for preciso). Ser feliz apreciando momentos banais, simples… O bom de acessar um estado de felicidade com coisas simples é que elas estão sempre aí, acessíveis a todos… Já pensou se fosse o contrário: ser feliz apenas em viagens internacionais, em camarotes, ou com carros importados? 

Não há porque haver uma única definição de felicidade, pois somos seres diferentes; não aceite gabaritos que definam o corpo que temos que ter, as roupas que devemos usar, o celular que temos que possuir… Me parece que chegar nesse estado emocional de felicidade exige lucidez, autoconheicmento e principalmente liberdade, de tentar, de escrever nossa história pessoal e reescrever as regras do jogo se for preciso, percebendo que talvez a grande chave para a felicidade seja apreciar intensamente os momentos, o aqui e agora, que você registra como se fossem eternos porque foram bons, que você deseja que não acabem porque te alegraram e lhe fizeram esquecer de olhar para o relógio…

Um grande abraço e um excelente ano.

Imagem de capa: Oleg Magni no Pexels

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Thiago Pontes
Thiago Pontes é Filósofo e Neurolinguista (PNL), autor de quatro livros, considera-se um provocador atuando por meio de textos que por vezes incomodam o leitor, levando-o a refletir sobre os mais diversos assuntos que fazem parte do seu cotidiano. Longe de ser um “guru” com respostas prontas; Thiago idolatra a dúvida, segundo ele: “- São elas que nos fazem ir ao encontro de respostas e obter novos e melhores resultados”.