Eu me lembro do medo que senti quando uma colega de trabalho retornou da China na primeira quinzena de Janeiro deste ano. Ela chegou na empresa com dor de garganta, tontura e mal estar, naquele momento o Coronavírus já era notícia no mundo, e eu ficava receosa de chegar perto dela. O tempo passou e era apenas uma dor de garganta que ela teve. O medo é natural, faz parte da vida, mas pavor é insane, sacana e ainda corrói a gente. 

O tempo passou e agora vivemos uma pandemia mundial.

Até há três semanas atrás, eu estava tendo contato com colegas que voltavam de Milão a negócios. Tinha dias que lavava minhas mãos mais de dez vezes por dia, evitava pegar na mão dos outros e quando alguém tossia ou espirrava, eu me arrepiava de medo. Aqui na Holanda apareciam os primeiros casos até que apareceu uma jovem de 23 anos doente com o Coronavírus na cidade que moro. Depois desse primeiro caso confirmado do vírus, confesso que entrar no trem, ônibus ou tram era uma missão de muita coragem.

Desde a última sexta-feira, Delft parece parada no tempo. Nos supermercados não existem papel higiênico, pães, macarrão, molhos de tomate e branco e tantos outros produtos que podem ser estocados. O Primeiro Ministro da Holanda apareceu na tv para falar que não vai faltar nada, que era para as pessoas seguirem tranquilas, mesmo assim, os produtos estão escassos e você só consegue comprar o que está faltando nas prateleiras se for bem cedo para o supermercado. 

Álcool gel, máscara, sabonete líquido anti-séptico não existem para comprar desde os primeiros casos do Covid-19 na Itália. Como tudo tem um lado positivo, pelo menos, os holandeses criaram  o hábito de lavar as mãos. 

Domingo não teve missa, não teve culto e não vai ter até que tudo se normalize mais um pouco. O domingo parecia mais um feriado no meio da semana no Brasil com dia nublado. Tudo escuro e sem graça.

O país todo está parado. As universidades e as escolas fechadas. Desde de ontem bares, cafés e restaurantes ficarão abertos até as 18:00. Pessoas ainda transitam pelas ruas rumo ao supermercado com a esperança de acharem papel higiênico, sinceramente, não entendo essa fissura toda para estocar isso. Acho que eles estão cozinhando com papel higiênico, só pode.

Hoje segunda-feira estou de quarentena em casa por tempo indeterminado até a poeira abaixar para voltarmos a vida normal de antes. Quando levantei pela manhã, me deu uma aflição desinquieta porque não sabia como passar o tempo com tudo fechado e parado. Então, comecei o dia arrumando as gavetas de roupas, depois lavei minha varanda, lavei os casacos de frio e fui caminhar com o meu marido em plena segunda, no meio da tarde. Percebi que mesmo quando tudo parece sem sentido ou perdido, sempre há algo bom, basta apenas um olhar grato. 

Com a quarentena estou aprendendo que ficar em casa e curtir a simplicidade das coisas além de prazeroso também é um meio de evitar a propagação desse Coronavírus que nos assombra.

O isolamento individual, familiar, pode nos salvar e nos livrar desse mal. A quarentena não é vão, é uma maneira de dizer não a esse vírus.

Como aprendemos sempre com as desavenças da vida, acredito que este vírus veio para aproximar as famílias, para acalmar as ansiedades dos dias, para apreciarmos e brincarmos com os nossos filhos, para ligarmos para nossos pais todos os dias, para dar sentido a vida a nossa volta. Nada é em vão, nem mesmo momentos que nos tira o chão.

Aqui na Holanda já sabemos que 70% da população será infectada pelo Covid-19, mas não perco minha fé e minha esperança que tudo ficará bem, porque sempre fica. 

Sim, esse Covid-19 é uma gripe forte, porém extremamente nocivo para quem é idoso, tem problemas coronários, são hipertensos, sofrem com problemas respiratórios, são fumantes ou tem diabetes. Por favor, pare de subestimar esse vírus e permita se consumir pela quarentena que além de descanso garantido faz com que você se aproxime de quem realmente te quer bem e te ama. Sim a quarentena. Sim ao confinamento familiar. Daqui a pouco tudo passa, porque assim como tudo que é bom tem um fim, logo, esse vírus passará também. 

Se você leu até aqui este artigo, por favor, seja mais consciente.

Evite lugares aglomerados, lave as mãos bem lavadas, não pegue na mão de pessoas e pare de acreditar nesses vídeos espalhados na internet dizendo que é jogada política e etc. Talvez as teorias das conspirações tenham fundamentos, mas não seja cético a ponto de não acreditar que esse vírus é apenas uma gripe forte, porque quando está perto da gente, reconhecemos que não é tão simples assim e o medo sempre nos abraça.

Por: Simone Guerra

Imagem de capa: Gustavo Fring no Pexels

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Simone Guerra
Simone Guerra é mãe, escritora, professora e encantada pela vida. Brasileira morando na Holanda. Ela não é assim e nem assada, mas sim no ponto. Transforma em palavras tudo o que o coração sente e a alma vive intensamente. Apaixonada por artes, culturas, línguas e linguagem. Não dispensa bolo com café e um dedinho de prosa.