Neuropediatra faz alerta polêmico: “Estamos confundindo gente esquisita com autismo?”, gerando debate sobre aumento de diagnósticos

O crescimento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil voltou ao centro das discussões após declarações do renomado neuropediatra José Salomão Schwartzman, um dos maiores especialistas brasileiros no tema.

Durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o médico afirmou que parte dos diagnósticos pode estar sendo feita de forma excessivamente ampla, chegando a confundir “gente esquisita” com pessoas que realmente se enquadram no espectro autista.

A fala repercutiu intensamente porque toca em um tema sensível: afinal, por que os casos de autismo parecem aumentar tanto? Estamos diante de uma verdadeira explosão da condição ou de uma mudança na forma como ela é identificada?

O alerta de José Salomão Schwartzman

Na entrevista, Schwartzman destacou que o limite entre uma pessoa diagnosticada com autismo nível 1 — considerado o nível de menor necessidade de suporte — e alguém apenas introvertido ou com características sociais peculiares pode ser bastante tênue.

“O limite entre alguém com autismo nível 1 e uma pessoa apenas pouco sociável ou com características específicas é muito pequeno. Depende até do médico”, afirmou o especialista.

Ele também chamou atenção para uma limitação importante da medicina atual: a ausência de exames objetivos capazes de confirmar o diagnóstico.

“Enquanto você não tiver marcadores objetivos, como exames genéticos ou de neuroimagem, vai continuar havendo dúvidas sobre quem realmente se enquadra no diagnóstico.”

Segundo o médico, a expansão dos critérios diagnósticos ao longo dos últimos anos fez com que o conceito de espectro autista se tornasse muito mais amplo do que era décadas atrás.

Por que os diagnósticos de autismo aumentaram?

Apesar da polêmica, especialistas apontam que o crescimento dos diagnósticos possui diversas explicações e não significa necessariamente que mais pessoas estejam “desenvolvendo” autismo.

Entre os principais fatores estão:

  • maior conscientização de pais, professores e profissionais da saúde;
  • ampliação dos critérios diagnósticos com a chegada do DSM-5, em 2013;
  • adoção da CID-11, da Organização Mundial da Saúde, que também unificou diferentes classificações do espectro;
  • maior acesso à avaliação especializada;
  • redução do estigma em torno do diagnóstico.

Ou seja, muitas pessoas que antes passavam despercebidas hoje conseguem receber um diagnóstico e acessar direitos garantidos por lei.

O que dizem os números oficiais?

Pela primeira vez, o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, trouxe dados nacionais sobre o TEA. O levantamento identificou 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com autismo, o equivalente a cerca de 1,2% da população.

Os dados também mostram que:

  • o diagnóstico é mais frequente em meninos (1,5%) do que em meninas (0,9%);
  • a maior prevalência ocorre entre crianças de 5 a 9 anos, especialmente no sexo masculino;
  • a distribuição dos casos é relativamente semelhante entre as regiões brasileiras.

Esses números aproximam o Brasil das estimativas internacionais, que costumam variar entre 0,7% e 1,5% da população.

Existe um exame que confirma o autismo?

A resposta curta é: não.

Atualmente, o diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, baseado na observação do comportamento, entrevistas com familiares, histórico do desenvolvimento e instrumentos padronizados de avaliação.

Embora pesquisas avancem na busca por marcadores genéticos, exames de imagem cerebral e até ferramentas de inteligência artificial capazes de auxiliar na identificação do transtorno, nenhuma dessas tecnologias substitui hoje a avaliação realizada por profissionais especializados.

Esse é justamente um dos pontos levantados por Schwartzman: enquanto não houver um teste objetivo, diferentes especialistas podem interpretar alguns casos de maneiras distintas.

O debate exige equilíbrio

As declarações do neuropediatra provocaram reações diversas entre profissionais, famílias e pessoas autistas.

De um lado, há quem concorde que diagnósticos excessivamente flexíveis possam banalizar uma condição que exige atenção especializada.

De outro, especialistas e representantes da comunidade autista alertam que questionar o aumento dos diagnósticos não deve servir para desacreditar pessoas que realmente enfrentam dificuldades significativas em sua vida cotidiana.

O consenso entre especialistas é que o diagnóstico precisa ser criterioso, baseado em evidências e realizado por equipes qualificadas, justamente para evitar tanto o subdiagnóstico quanto o excesso de diagnósticos.

Imagem de Capa: Reprodução/Canva





Márcia Lourenço
Formada em Nutrição e apaixonada pela profissão, encontro na escrita uma forma de expressão e conexão. Na criação de conteúdo do Sabias Palavras, abordo temas como saúde, bem-estar, relacionamentos e temas divertidos e de reflexão, sempre com uma abordagem humana.