Sabe quando a gente perde o chão e nada mais importa.

De repente você se encontra no meio do nada, olha dos lados e percebe estar no meio de uma selva e, chove torrencialmente. Nem pensar em se esconder. O que faria no meu lugar? Acho que toda a resposta seria caminhe! Ande mesmo que seja em círculos.

Caminhe. E foi o que eu fiz. Caminhei entre galhos soltos no caminho. Notei estar descalço e minhas roupas puídas, sujas, um maltrapilho. Árvores gigantes em toda a volta. Os raios iluminavam suas copas e projetavam sombras. A chuva escorria pelos longos cipós. Muitos cipós entrelaçados por onde escorriam verdadeiras bicas d’água. Por um momento achei que seria levado lá para cima. Onde talvez não estivesse chovendo.

Continuei caminhando. Não pensava em nada.

Ocorreu-me, por um segundo, por que não sentia medo… Não pensava em mais nada. Nada mais me importava. Só queria sentar, descansar, fechar os olhos e, quem sabe teria a sorte dormir para sempre. Encostei-me em um tronco apodrecido. Lembrei-me de quando era jovem, minha mãe arrumava minha cama e até exagerava nas cobertas em noites frias come esta. Tinha sempre um prato de comida a minha espera. Roupas limpas e passadas. Pensando nisso acabei adormecendo. Nem percebi que a chuva parou.

Sonhei. Sonhei que flutuava no ar. Um pouco acima do chão. Braços abertos. Na horizontal. Para pegar impulso batia os pés nos poste e muros.

Ninguém me notava. Era como se fosse invisível. E assim fiquei por um bom tempo. Quando acordei estava tremendo de frio. Molhado até os ossos. Levantei-me e segui em frente. Atravessei várias corredeiras d’água algumas porteiras. Cheguei a um lugar seco. Não havia chovido ali. Sem nenhum som. Notei não ter pessoas, pássaros nem formigas… Mas encontrei uma fogueira que parecia estar apagada. Aproximei-me e assoprei suas cinzas. Apareceu uma pequena brasa.

Parecia estar assim como eu prestes a apagar…

Era jovem e quanto mais eu assoprava mais ela ficava jovem. Até que seus olhos brilharam com um vermelho intenso. À medida que assoprava ela foi se levantando e com movimentos sensuais me abraçou. Senti o calor da paixão percorrendo todo o meu corpo.

Alguém de vocês já se apaixonou? Você tem idéia do que é uma paixão? Poucas pessoas se apaixonaram como eu naquele momento. Foi sublime. Ela era bem mais jovem que eu. Muito mais jovem. Quente, esperando que aparecesse alguém que despertasse sua paixão.

Alguém disse despertar o amor? Não meu caro amor não é nada disso. Isto aqui é paixão. Ela se entregou aos meus caprichos. A envolvi em meus braços. Sentimos a ardência do desejo. Desejo consumado. Ela queria mais e mais e assim fizemos amor intenso. Quente. Ao fazermos amor ela olhava em meus olhos e por ele eu sabia que esta feliz. Mas, mas como a paixão é efêmera seu olhar foi se apagando eu a apertava contra meu peito e nossos corações se tornaram um só.

Ela fechou os olhos e se desmanchou em meus braços.

Virou cinza e lá ficou inerte. Mas eu me sentia vivo. A noite se tornou chuvosa novamente. Relâmpagos e trovões tomaram conta do céu.

Até hoje penso nela. Ao tomar banho penso nela. Sempre que passo as mãos em meu peito sinto a cicatriz. Doe um pouco. Melhor que tenha terminado assim. A paixão só é lembrada quando dura pouco. Não existe paixão que dure para sempre. Amor sim, amor dura para sempre.

Volto a dizer a paixão é efêmera, mas a gente jamais esquece.

Por: Helio Borgoni

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