“Adeus” Ozempic. Novo remédio experimental revela possibilidade de dobrar a perda de peso
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial; dispositivo genérico, sem representar uma apresentação comercial de retatrutida.

A retatrutida apresentou mais que o dobro da perda média de peso do Ozempic em adultos com diabetes tipo 2, segundo a Eli Lilly, que anunciou os dados em 28 de outubro de 2026.

A notícia abre uma nova perspectiva para a pesquisa de tratamentos metabólicos. A substância, porém, continua sem aprovação para venda. Entender quem participou do teste, como os resultados foram calculados e quais problemas ocorreram ajuda a avaliar o alcance da descoberta.

Retatrutida e Ozempic: o que foi comparado

O ensaio de fase 3 TRANSCEND-T2D-2 avaliou pessoas cujo diabetes não estava suficientemente controlado com metformina, com ou sem outro antidiabético da classe dos inibidores de SGLT2. Conforme o registro do estudo, os participantes eram adultos com sobrepeso ou obesidade. Portanto, a pesquisa trata de um perfil clínico específico.

O comunicado da Lilly informa que o confronto reuniu 1.298 participantes por 80 semanas:

Comparação em adultos com diabetes tipo 2 — estimativa de eficácia
Tratamento e dose semanal estudada Redução média do peso
Retatrutida 9 mg 19,5%
Retatrutida 12 mg 20,9%
Ozempic 2 mg 9,4%

Foi usada uma estimativa de permanência no tratamento, sem acrescentar outro antidiabético. São médias, não previsões individuais. O confronto ainda aguarda publicação científica detalhada.

Por que a retatrutida desperta tanto interesse?

Ela age sobre três receptores hormonais: GIP, GLP-1 e glucagon. Já a semaglutida, substância do Ozempic, atua no receptor de GLP-1. Essa diferença ajuda a explicar o interesse científico pela molécula, mas a quantidade de alvos, sozinha, não determina qual tratamento é adequado para cada pessoa.

A retatrutida também foi avaliada no TRIUMPH-1, um estudo publicado no New England Journal of Medicine. Nesse outro ensaio, com 2.339 adultos com obesidade e sem diabetes, a dose de 12 mg esteve associada a uma redução média de 25% do peso em 80 semanas, considerando também interrupções do tratamento, contra 3,9% com placebo.

São pesquisas diferentes, com populações e métodos de análise distintos. Misturar os percentuais dos dois estudos criaria uma comparação que os dados não permitem.

Quais efeitos adversos foram relatados?

Náusea, diarreia, constipação e vômitos foram frequentes. Interrupções por efeitos adversos: retatrutida 9 mg, 4,8%; 12 mg, 7,9%; Ozempic, 2,7%.

Essas informações fazem parte da avaliação de um tratamento. Para quem já usa medicamentos aprovados, conhecer os sinais de alerta e relatar sintomas ao profissional responsável também é importante. O resultado de um ensaio não orienta, por si só, a troca de uma medicação.

Ela já pode ser comprada no Brasil?

Não há medicamento de retatrutida aprovado para comercialização. Em 14 de outubro de 2026, a Anvisa informou que a substância não tinha registro em nenhum país e determinou medidas contra produtos vendidos irregularmente pela internet. Uma oferta online não transforma uma substância experimental em tratamento autorizado.

Também é preciso distinguir marcas e indicações. Ozempic é utilizado no tratamento do diabetes tipo 2; Wegovy contém a mesma substância, semaglutida, e tem indicação para controle de peso em pessoas que atendem aos critérios aprovados. A indicação do Wegovy prevê seu uso associado à alimentação e à atividade física. O novo confronto com Ozempic não compara todas as apresentações de semaglutida.

O entusiasmo com novidades também favorece expressões como Ozempic natural. Para avaliar uma promessa, vale perguntar qual substância foi testada, em quem e com quais riscos. No caso da retatrutida, os resultados justificam acompanhar a pesquisa; qualquer decisão de tratamento depende de avaliação médica e de opções devidamente aprovadas.

Informações verificadas em 30 de outubro de 2026. As doses citadas descrevem pesquisas e não constituem orientação de uso.