
O Alzheimer sempre foi considerado uma doença neurodegenerativa ligada ao envelhecimento, fatores genéticos e estilo de vida. No entanto, recentes pesquisas revelam um nova hipótese: e se a doença não for apenas degenerativa, mas também infecciosa?
A bactéria que liga a boca ao cérebro
Um estudo realizado pela Universidade de Louisville, encontrou nos cérebros de pacientes com Alzheimer a presença da bactéria Porphyromonas gingivalis, conhecida por causar doença periodontal (gengivite e periodontite).
O mais impressionante é que ela não estava inativa. Dessa maneira, ela produz toxinas capazes de danificar neurônios, gerar inflamação e favorecer o acúmulo de placas beta-amiloides e emaranhados de proteína tau — duas das principais marcas do Alzheimer.
Ainda mais alarmante: essas toxinas também foram detectadas em cérebros de pessoas sem diagnóstico de Alzheimer, sugerindo que a infecção pode preceder os sintomas e até desencadear a doença.
Além da boca: outros microrganismos suspeitos
Embora a descoberta da P. gingivalis tenha chamado atenção, ela não é a única sob investigação. Outros agentes infecciosos também podem estar ligados ao Alzheimer:
- Vírus HSV-1 (herpes simples tipo 1): encontrado em cérebros de pacientes, especialmente em pessoas com o gene APOE4. Pode reativar inflamações e acelerar o depósito de placas amiloides.
- Fungos como a Candida albicans: fragmentos de DNA e proteínas fúngicas já foram identificados em cérebros com Alzheimer.
- Bactérias intestinais desequilibradas: quando há disbiose, toxinas bacterianas atravessam a barreira hematoencefálica, inflamando o sistema nervoso.
- Borrelia burgdorferi (causadora da Doença de Lyme): também investigada por seu potencial de provocar inflamação cerebral.
Portanto, em todos os casos, há um fator comum: a neuroinflamação crônica. Alguns cientistas já sugerem que as placas amiloides talvez não sejam “lixo cerebral”, mas sim uma resposta de defesa contra microrganismos invasores.
Prevenção: o papel da boca e do intestino
Se a hipótese infecciosa for confirmada, a prevenção contra o Alzheimer poderá ir muito além de exercícios cognitivos e alimentação saudável. Ela incluiria também cuidados com a microbiota bucal e intestinal:
- Higiene oral completa: escovação adequada, uso de fio dental e visitas regulares ao dentista.
- Probióticos orais e intestinais: que ajudam a equilibrar as bactérias benéficas.
- Alimentação anti-inflamatória: rica em fibras, polifenóis, vegetais, frutas e alimentos fermentados.
- Nutrientes neuroprotetores: como ômega-3 (DHA/EPA), vitaminas do complexo B, vitamina D3 com K2, magnésio, além de antioxidantes como resveratrol, curcumina e astaxantina.
- Redução da exposição a toxinas ambientais: alumínio, mercúrio e pesticidas podem acelerar processos degenerativos.
- Estilo de vida saudável: sono reparador, atividade física, jejum intermitente equilibrado e exposição solar moderada.
Um novo olhar sobre o Alzheimer
A comparação com a úlcera gástrica é inevitável: durante décadas, acreditava-se que era causada apenas por estresse, até que a ciência identificou a bactéria Helicobacter pylori como um fator central.
Da mesma forma, talvez o Alzheimer seja, em parte, consequência de infecções silenciosas que inflamam o cérebro ao longo dos anos, corroendo a memória e a identidade das pessoas.
O que parecia apenas um problema de envelhecimento pode ter raízes muito mais complexas. A boca pode ser a porta de entrada para os microrganismos que destroem neurônios, e cuidar da saúde bucal pode ser um passo essencial na prevenção da demência.
Mais do que nunca, pesquisas apontam que memória e saúde cerebral começam na boca e no intestino. O futuro da prevenção e do tratamento do Alzheimer pode estar escondido onde menos imaginamos.
Imagem de Capa: Canva