Felicidade deveria ser simples

Olhando a lua que refletia na Lagoa, sussurrou:‘Naquela época eu era feliz e não sabia’. Eu, que estava contente por estar contemplando aquela noite agradável e bonita, fiquei com essa frase martelando na cabeça. Por que raios é tão difícil saber quando estamos felizes?

Você chora de saudades. As músicas melancólicas fazem sentido. É difícil acordar, é sufocante respirar, é muito fácil derramar uma lágrima: você está triste. Não é preciso anunciar aos quatro ventos – a olheira, a voz arrastada, a lista do spotify e até mesmo sua áurea te denuncia. Tristeza é muito fácil de identificar, a gente sempre sabe quando está assim. Por que o mesmo não acontece com a felicidade, essa palavra de cor amarela e cheiro de café quentinho? (Minha sinestesia dessa palavra é mais ou menos assim).

A gente precisa mesmo estar triste para se tocar que foi feliz em um certo tempo?Olhe para si agora: como se sente? Feliz ou triste? Ou nenhum dos dois? Você está perdido no limbo de quem nada sente ou apenas não está prestando atenção?

Temos por cultura reparar nas desgraças. Abra a página do jornal e conte quantas notícias ruins e quantas boas possuem espaço. Olhe no feed do seu Facebook quantas pessoas estão ‘se sentindo’ tristes, incomodadas, agoniadas e afins. Não faça isso no Instagram, lá é a rede social da felicidade e do glamour, com seus pratos de sushis brilhantes, qualquer coisa gourmet e praias com filtros paradisíacos. Quase toca a música Happy, do Pharrel, toda vez que se abre o aplicativo. O que é até um tanto engraçado, porque mesmo na rede social do I’m So Happy tanta purpurina parece meio falsa.

Sabe por que de tudo isso? Simples. Essa é a resposta: simples. Felicidade deveria ser isso aí – simples. Muitos de nós não sabemos que somos felizes porque gostamos de complicar tudo – não se pode ser feliz se o pôr do sol não for o mais bonito, o carro mais novo ou o temaki mais cheio de trecos (não entendo de sushi). Então quando deixamos de ter as coisas simples porque miramos sempre o melhor, mais gostoso e mais bonito, nos damos conta de que alegres eram aquelas tardes de cachorro quente e sofá da sala. De patins e beijinhos apaixonados no banco da praça. De dias de chuva e pijamas preguiçosos.

Todo dia você é feliz, se reparar bem. Felicidade não é só olhar lá pra frente, é questão de olhar para os lados: tudo bem querer um carro melhor e se alegrar com essa conquista, mas que felicidade enorme essa de poder reparar nos caminhos da estrada enquanto você é passageiro! Quanta alegria em comer um hambúrguer gourmet, mas como é legal – e eu amo isso – dividir aquele X do tio sentada em uma cadeira plástica, rindo sem parar da maionese que caiu na roupa.

Hoje eu não estava triste nem feliz, estava cansada. Abri a porta da minha casa e meu gato já me perseguiu miando sem parar em busca do seu rotineiro abraço. Tinha café. Tinha bilhete de amor e cheiro de roupa limpa. Tinha a felicidade de ter acordado às quatro da manhã pra ir trabalhar, ter feito um bom trabalho e poder ter a tarde toda para correr atrás dos objetivos maiores – mirando lá na frente, mas olhando para meu redor, tão cheio de amor e cores, que o cinza da tristeza que bate vez em quando não mancha todo o cenário.

Fui muito feliz naquele tempo. Sou muito feliz agora. Quero ser muito feliz num tempo que virá. Como é que diz? ‘É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe’. A melhor não coisa, digo eu. O que você já fez para sorrir no dia de hoje? Não fez? Só ria: em todos os tempos, em todas as épocas. Sem filtro.

FONTEAmor Ano Zero
TEXTO DECristina Souza
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