Histórias

A mãe das minhas trigêmeas voltou na formatura e pediu que eu saísse da foto

Conto de ficção.

Vera esperou o fotógrafo levantar a câmera para tocar no meu braço.

— Você pode sair um pouquinho? Queria uma foto só com as meninas.

Fazia dezessete anos que ela não ficava tão perto de mim. Mesmo assim, reconheci o jeito de ajeitar a pulseira antes de pedir alguma coisa.

Dei um passo para trás. Minhas três filhas ainda seguravam os diplomas quando Clara estendeu a mão e agarrou a manga do meu paletó.

— Espera, pai. A nossa foto ainda não está pronta.

Então olhou para as irmãs. Beatriz desapareceu pela porta lateral do teatro. Júlia pediu ao fotógrafo que aguardasse.

Foi quando percebi que elas haviam planejado alguma coisa.

O banco que quase ficou em casa

Naquela manhã, Clara me fizera colocar um banco velho na caçamba da caminhonete emprestada.

— Na formatura? — perguntei.

— Depois eu explico. Só não esquece.

Era um banco estreito, de madeira, com tinta azul descascando nas pernas. Eu o construíra quando elas tinham cinco anos, usando tábuas que sobraram de um serviço.

Vera havia ido embora alguns meses antes. Disse que precisava tentar uma vida diferente em outra cidade. No começo, telefonava aos domingos. Depois, os intervalos aumentaram. Houve promessas de visitas, duas passagens canceladas e um número que deixou de funcionar.

Eu trabalhava consertando móveis. Como pai solo, ouvia conselhos de todo mundo sobre como criar os filhos. Na nossa casa, eu aprendia enquanto as coisas aconteciam.

O banco resolveu um problema pequeno: três meninas querendo alcançar, ao mesmo tempo, a pia do banheiro.

Depois virou arquibancada diante do fogão, palco de apresentações e assento para fazer dever na bancada da oficina. Elas alinhavam os cadernos enquanto eu lixava portas.

Uma noite, Júlia dormiu sobre um exercício de divisão. Beatriz cobriu a irmã com meu avental. Clara me perguntou se eu ainda ia trabalhar muito.

— Só até terminar esta gaveta.

Ela encostou a cabeça no meu ombro.

— Então a gente espera.

Naquela noite, não terminei a gaveta. Fechei a oficina e levei as três para a cama.

Anos depois, guardamos o banco atrás do tanque. As meninas cresceram, passaram no vestibular da mesma universidade e conseguiram bolsas. Eu continuei aceitando serviços aos sábados. Os gestos de cuidado mudaram: aprendi a fazer chamadas de vídeo e a deixar comida pronta quando os estágios terminavam tarde.

Ser pai de trigêmeas também era decorar três horários que mudavam toda semana.

Na véspera da formatura, descobri que Vera estaria lá.

Júlia me contou enquanto passava a camisa que eu pretendia usar.

— Ela me encontrou pela internet. Estamos conversando há algumas semanas.

Parei de procurar o botão que faltava no punho.

— Você quer que ela venha?

— Quero saber como vou me sentir quando olhar para ela.

Clara preferia manter distância. Beatriz dizia que não sabia. Eu queria respeitar os limites de cada uma. Combinamos que ninguém seria obrigado a abraçar, conversar ou decidir nada naquela noite.

Eu só pedi para não ser pego de surpresa.

Ainda assim, fui.

Vera chegou com flores e um vestido verde. Abraçou Júlia, que deixou. Beijou Beatriz no rosto. Clara ofereceu a mão.

— Como vocês estão lindas — disse.

Quando me viu, olhou rapidamente para o meu paletó. Era emprestado do meu irmão e sobrava um pouco nos ombros.

— Você também está bem, Augusto.

Assenti. Não encontrei uma resposta que coubesse ali.

O que minhas filhas tinham preparado

A cerimônia passou entre nomes anunciados e fotografias tremidas. Aplaudi tanto que perdi a hora de filmar Beatriz recebendo o diploma. Júlia procurou meu rosto na plateia. Clara levantou o canudo na minha direção.

Depois, no saguão, veio o pedido de Vera.

Eu podia entender que quisesse um retrato com as filhas. O que doeu foi perceber como eu estava pronto para sair, sem sequer perguntar qual fotografia elas queriam.

— É só um minuto — Vera acrescentou, vendo Clara segurar minha manga.

— Eu sei — respondeu minha filha. — Mas a gente combinou outra coisa primeiro.

Beatriz voltou carregando uma ponta do banco. Um funcionário do teatro segurava a outra. As pernas azuis passaram entre vestidos compridos e sapatos brilhantes.

Reconheci meu trabalho pelo pequeno desnível do assento. Nunca conseguira corrigir aquilo completamente.

— Vocês trouxeram esse trambolho até aqui?

— Foi você que trouxe — disse Beatriz, recuperando o fôlego. — A gente só pediu para guardarem.

Júlia tirou uma fotografia da bolsa.

Nela, as três apareciam sobre o banco, com uniformes da escola. Eu estava atrás, ainda com a roupa da oficina. As três lancheiras estavam alinhadas aos nossos pés. Uma vizinha fizera o retrato no primeiro dia de aula.

Minha mão esquerda repousava no ombro de Clara. A direita segurava Beatriz pela cintura para ela não cair. Júlia ria de alguma coisa que já não lembrávamos.

— A gente quer refazer esta — ela explicou.

Olhei para o banco, pequeno demais para aquelas mulheres de beca.

— Vai quebrar.

— Por isso você senta — disse Clara. — Agora a gente fica atrás.

Eu me sentei. As três se posicionaram ao meu redor. Beatriz apoiou a mão no meu ombro, Júlia abraçou meu pescoço e Clara colocou os diplomas no meu colo.

— Não esconde as mãos, pai.

Eu as havia recolhido por vergonha das unhas manchadas de verniz.

Vera estava a poucos passos. Ninguém a expulsou. Mas, pela primeira vez naquela noite, ela precisou esperar.

O fotógrafo pediu que sorríssemos.

Tentei. Minha boca tremeu antes que eu conseguisse.

— Pode tirar assim — Beatriz falou.

Depois da foto, Júlia se aproximou da mãe.

— Eu posso tomar um café com você na semana que vem. Só nós duas. Mas hoje vou jantar com meu pai e minhas irmãs.

Vera apertou as flores contra o peito.

— E a nossa fotografia?

Júlia olhou para as irmãs.

— Hoje, não.

Na volta, passamos numa lanchonete porque ninguém tinha feito reserva. Dividimos duas porções de batata, ainda vestidos para a cerimônia. Clara contou que quase derrubara o canudo. Beatriz confessou que o sapato machucava desde o meio-dia.

Júlia me mostrou a foto na tela.

Minhas mãos estavam abertas sobre os diplomas. As três riam atrás de mim. O banco continuava torto.

— Essa vai para a oficina — falei.

No dia seguinte, tirei do mural um calendário vencido e coloquei o retrato no lugar. Logo abaixo, deixei o banco azul.

Na sexta-feira, as três apareceram com café e pão.

Não cabiam mais sentadas juntas.

Puxei duas cadeiras.

Sábias Palavras

Relaxa, dá largas à tua imaginação, identifica-te!

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