Reflexão

A importância de fechar ciclos e perdoar as mágoas do passado

Fui à estreia do novo “Rei Leão” com meu filho de treze anos. Já havia assistido à primeira versão em 1998 e estava animada para apresentar a ele a história de Simba, Mufasa, Nala e Scar. Uma das grandes lições do filme diz respeito ao “Grande Ciclo da Vida”. Sempre me comove a parte em que Mufasa, o pai, diz à Simba, o filhote: “O tempo de um reinado se levanta e se põe como o Sol. Um dia o Sol vai se pôr com o meu tempo aqui, e vai se levantar com o seu como o novo rei”.

Assim como na natureza, nós também fazemos parte de um delicado equilíbrio e, apesar de nossa resistência e apego ao que foi vivido, somos construção e desmoronamento, emersão e naufrágio, elaboração e aniquilamento, preenchimento e vazio, gozo e desgosto, aflição e satisfação, presença e ausência, perdas e ganhos, finalizações e recomeços, inquietação e reinvenção.

No livro “Perdas e Ganhos” de Lya Luft, ela diz: “A tarefa de viver nunca se conclui, a não ser que a gente determine”. Essa frase fez muito sentido para mim num momento em que busco me despedir de tudo aquilo que antes me definia e que hoje não tem mais cabimento nem lógica na minha nova etapa de vida.

Muitas vezes a gente altera as coisas do lado de fora mas não modifica nada do lado de dentro.

Corta o cabelo, muda de casa, pede demissão, altera o status de relacionamento do Facebook, tem um filho… mas continua repetindo padrões de insegurança, orgulho, culpa, mágoa, egoísmo, vitimização. Aparenta leveza no sorriso mas tem uma lâmina aguda cravada no próprio peito. Diz “vida que segue” para os amigos mas no quarto escuro bate na tecla do saudosismo. Parece bem resolvido no discurso mas não consegue encontrar sentido no próprio percurso. Arrumar as gavetas e acender um incenso são pequenas atitudes que ajudam, mas é preciso mergulhar um pouco mais fundo se quisermos nos desconstruir e experimentar a vida mais profundamente.

Acho lindo os ritos de passagem festivos e religiosos: as celebrações que assinalam o final da infância e o início da adolescência, as cerimônias de formatura e graduação, o batismo, o casamento. Esses rituais são marcos importantes que assinalam o fim de um tempo e o início de outro, e ajudam na assimilação de que é chegada a hora da mudança. Porém, nem sempre haverá um ritual a nos indicar que um momento de transformação interna se aproxima. Mas, cedo ou tarde, esse momento chegará. Sem barulho, sem placas de aviso, sem intimação. Mas certamente sinalizado por uma dor ou incômodo muito grande gritando para ser modificado.

Como uma pedrinha inconveniente dentro do sapato, o momento que antecede a mudança é sempre incômodo. Porém, você pode optar por continuar andando com aquele grãozinho saliente em seu calçado, ou pode decidir fazer algo a respeito. Geralmente as maiores mudanças vêm de grandes dores.

As maiores transformações acontecem silenciosamente, sem alarde, dentro da gente. Não há barulho, nem mudança no status do Facebook, muito menos foto no Instagram. Pode surgir a partir de um motivo grandioso ou vir à tona a partir de uma frase lida num livro novo. Naquele momento de transformação que é só seu, você se torna guardião da história que quer contar, e rompe os vínculos com tudo aquilo que impede ou dificulta o seu passo. Você toma consciência de suas auto sabotagens, proteções, apegos. E decide que é chegada a hora de fazer uma fogueira e queimar tudo o que ainda te prende ao passado, e que, para seu próprio bem, não pode mais caminhar ao seu lado.

Fiz essa fogueira – real e interna – essa semana. Eu vivia de mãos dadas com a nostalgia, e não percebia que ela é irmã da melancolia. Sem noção dos danos provocados pelo apego às coisas do passado, eu colecionava cartas antigas e, juntamente com elas, acumulava mágoas, tanto do remetente quanto de outras pessoas ao meu redor (ouvi dizer que tudo está conectado). Descobri que não adiantava querer me livrar das mágoas sem me livrar das cartas. Então, movida pela coragem que o encerramento de ciclos requer, coloquei fogo em um acervo que já contava com mais de vinte e cinco anos. Foi bonito ver as chamas subindo, queimando tudo, e levando embora – pelo menos naquele momento – as mágoas e a dor.

Ninguém habita o presente e o passado ao mesmo tempo, e tentar jogar uma partida aqui com o pensamento lá será sempre um desastre.

Não traga de volta antigas lembranças, elas sempre estarão envoltas em antigos rancores, e nem sempre você terá domínio sobre suas emoções. Encerre ciclos, desapegue do passado, não olhe pra trás. Vida é erro e acerto, arrebatamento e assombro, tragédia e glória. Mas é, acima de tudo, transformação e impermanência…

Por: Fabíola Simões – A Soma de Todos os Afetos

Imagem de capa: Renato Abati no Pexels

Sábias Palavras

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