A grande revolução dos medicamentos para emagrecer trouxe uma consequência inesperada para a indústria da estética: algumas pessoas estão emagrecendo tão rapidamente que, além da gordura indesejável, também perdem volume em regiões que gostariam de preservar.
Rosto, seios, quadris e glúteos podem mudar totalmente de forma durante uma grande perda de peso. E, enquanto Hollywood continua obcecada pela silhueta perfeita, uma solução controversa começa a ganhar espaço: um produto feito a partir de tecido adiposo humano de doadores falecidos.
O nome da novidade é alloClae, um enxerto de tecido adiposo estrutural desenvolvido para restaurar volume em áreas do corpo onde normalmente existe gordura.
Segundo o fabricante, o material é produzido a partir de tecido adiposo humano de doadores falecidos, processado para remover células viáveis, mantendo componentes estruturais, como matriz extracelular e proteínas do tecido adiposo, para assim ser utilizado como material de enxerto.
A proposta é que esse material funcione como uma espécie de suporte sob a pele, oferecendo volume sem depender da sobrevivência de células de gordura transplantadas.
É justamente essa origem que tornou o produto tão chamativo — e também tão polémico. Em termos populares, a imprensa passou a descrevê-lo simplesmente como uma espécie de “gordura de cadáver”.
A novidade ganhou atenção justamente no momento em que os medicamentos da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e outros tratamentos semelhantes, transformaram o mercado de emagrecimento. Esses medicamentos podem provocar perda significativa de peso, mas não permitem escolher exatamente de quais partes do corpo a gordura será eliminada.
Isso ajuda a explicar por que a medicina estética passou a observar uma nova demanda: pessoas satisfeitas com a redução do peso, mas descontentes com a perda de volume em determinadas regiões.
A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos destaca que os chamados preenchimentos à base de gordura estão ganhando popularidade como alternativa a técnicas tradicionais de transferência de gordura, num contexto em que os medicamentos GLP-1 também estão alterando o contorno corporal de muitos pacientes.
Sharon Osbourne é uma das celebridades que falou publicamente sobre sua experiência com Ozempic e afirmou ter perdido cerca de 20 Kg em quatro meses, chegando posteriormente a lamentar o excesso de perda de peso.
Várias famosas como Demi Moore, Jenna Ortega, Rebel Wilson, Olivia Wilde, entre outras celebridades, foram associadas a esse tipo de transformação pela imprensa ou pelas redes sociais, no entanto, elas não confirmaram o uso de Ozempic, apesar de surgirem excessivamente magras.
O preço do alloClae também está longe de ser trivial. Uma paciente entrevistada pela CNN relatou ter desembolsado US$ 13 mil para receber 50 cc do produto em cada mama.
Cerca de dois meses depois, ela desenvolveu dor, alterações na coloração da pele e nódulos. Segundo o relato, foi diagnosticada com necrose gordurosa, uma complicação na qual o tecido não recebe irrigação sanguínea suficiente e acaba morrendo. A paciente também relatou a saída de um líquido amarelado pelo local da aplicação.
Apesar de a necrose poder ocorrer até mesmo em procedimentos tradicionais de enxerto de gordura, a empresa reconhece possíveis complicações, incluindo nódulos, cistos, dor, infecção, hematomas, respostas alérgicas ou imunológicas e alterações na coloração da pele.
Durante anos, a indústria da beleza vendeu a ideia de que o corpo ideal deveria ser simultaneamente extremamente magro e volumoso nos lugares “certos”.
Agora, uma nova geração de tratamentos promete corrigir justamente o que acontece quando alguém emagrece demais: retirar volume de determinadas regiões e, posteriormente, tentar devolvê-lo de forma artificial.
O resultado é um paradoxo difícil de ignorar. Primeiro, a tecnologia ajuda o corpo a perder gordura. Depois, outra tecnologia tenta recolocar volume onde a primeira intervenção o retirou.
No fim, a verdadeira novidade não é apenas a existência de um novo preenchimento. É o retrato de uma indústria que está tentando acompanhar, quase em tempo real, as consequências de uma transformação radical nos padrões corporais.
A promessa é recuperar as curvas perdidas. A pergunta que permanece é outra: até onde estamos dispostos a ir para construir o corpo que as redes sociais, Hollywood e a indústria da estética decidiram que devemos ter?
Imagem de Capa: Getty Images
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