Recentemente, pesquisadores da Universidade do Colorado Boulder realizaram um estudo em que revela que há uma bactéria presente no solo e no leite de vaca que conseguiu proteger camundongos contra o ganho excessivo de peso provocado por uma dieta rica em gordura e açúcar.
O estudo analisou os efeitos da Mycobacterium vaccae, um microrganismo que vem sendo investigado há anos por suas propriedades imunorreguladoras e anti-inflamatórias. Nos experimentos, os animais que receberam aplicações da bactéria apresentaram uma resposta surpreendente à chamada dieta ocidental.
Para realizar o experimento, os pesquisadores dividiram camundongos adolescentes em grupos submetidos a diferentes condições alimentares. Parte dos animais recebeu uma alimentação considerada saudável, enquanto outros passaram a consumir uma dieta semelhante ao padrão alimentar ocidental, com grande quantidade de gordura e açúcar. Alguns dos camundongos também receberam aplicações semanais de Mycobacterium vaccae.
O resultado chamou a atenção dos cientistas: os animais que consumiram uma dieta rica em gordura e açúcar, mas recebiam a bactéria, não apresentaram o mesmo ganho excessivo de peso observado no grupo que recebeu a mesma alimentação sem o tratamento.
Além disso, os pesquisadores observaram uma redução no acúmulo de gordura visceral, aquela localizada ao redor dos órgãos e associada a diversos problemas metabólicos.
De acordo com os resultados publicados, os camundongos tratados também apresentaram alterações em marcadores relacionados à inflamação e ao metabolismo.
A hipótese dos pesquisadores envolve o sistema imunológico. A Mycobacterium vaccae pertence a um grupo de microrganismos considerados pelos cientistas como parte dos chamados “velhos amigos”, bactérias e outros micróbios com os quais os seres humanos tiveram contato durante grande parte da evolução.
A teoria é que o estilo de vida moderno, principalmente a urbanização e a redução do contato com ambientes naturais, pode ter diminuído a exposição a alguns desses microrganismos.
De acordo com pesquisadores da Universidade do Colorado Boulder, essa menor exposição poderia estar relacionada a alterações na regulação do sistema imunológico e ao aumento de processos inflamatórios.
Essa bactéria já havia sido estudada anteriormente por seus possíveis efeitos sobre inflamação e resposta ao estresse em modelos animais. A nova pesquisa ampliou essa investigação para observar se a bactéria também poderia proteger contra algumas consequências metabólicas de uma alimentação pouco saudável.
Um detalhe importante que chamou a atenção dos pesquisadores foi que os animais tratados não passaram a consumir menos calorias.
Segundo a Universidade do Colorado Boulder, os grupos consumiram quantidades semelhantes de calorias. Mesmo assim, os camundongos submetidos à dieta ocidental e tratados com M. vaccae não apresentaram o mesmo aumento excessivo de peso e gordura visceral observado nos animais não tratados.
Isso levantou a possibilidade de que a bactéria esteja interferindo em mecanismos relacionados à forma como o organismo responde à alimentação, em vez de simplesmente reduzir o apetite.
A gordura visceral é considerada especialmente preocupante porque fica acumulada na região abdominal, próxima a órgãos internos, e está relacionada a alterações metabólicas. No estudo, os animais que receberam a bactéria apresentaram menor aumento de gordura visceral em comparação com os camundongos que consumiram a dieta ocidental sem receber o tratamento.
Os pesquisadores também identificaram uma redução no aumento dos níveis de leptina provocado pela dieta ocidental, além de alterações em marcadores associados à neuroinflamação.
Esses resultados ajudam a explicar por que os cientistas acreditam que a ação da bactéria pode envolver uma combinação de mecanismos imunológicos, inflamatórios e metabólicos.
Apesar de o resultado ser considerado promissor, é fundamental destacar que a pesquisa foi realizada em camundongos, e não em seres humanos. Portanto, ainda é preciso mais estudos para afirmar que a Mycobacterium vaccae consiga impedir o ganho de peso em pessoas.
Antes de qualquer possibilidade de aplicação clínica, seriam necessários estudos adicionais para determinar se o efeito se repete em outros modelos, compreender exatamente como a bactéria atua e, posteriormente, avaliar segurança e eficácia em seres humanos.
A descoberta não significa que uma pessoa poderá comer livremente alimentos ricos em gordura e açúcar no futuro sem consequências. O que os pesquisadores encontraram é algo diferente: um possível mecanismo biológico capaz de modificar a resposta do organismo aos efeitos metabólicos de uma dieta ocidental.
A pesquisa reforça a ideia de que o sistema imunológico, a inflamação, o microbioma e o metabolismo estão profundamente conectados.
Se resultados semelhantes forem futuramente observados em seres humanos, microrganismos como a Mycobacterium vaccae poderão abrir caminho para novas estratégias de prevenção ou tratamento de doenças relacionadas à inflamação e ao metabolismo.
Imagem de Capa: Sábias Palavras
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