Você não sai da cabeça

Eu poderia escrever pra te dizer que sinto nada; que tenho te esquecido cada dia um pouco mais desde que você resolveu ignorar essa coisa que me martela o peito e a cabeça, mas não estou. Eu até queria, mas não estou. Não é algo que a gente decide, que a gente crava a sentença de que vai esquecer alguém e do nada, de uma hora pra outra, esquece. É algo que, quanto mais a gente tenta, mais a gente insiste, mais a gente busca esquecer, a gente lembra. Lembra porque sempre há um música, um restaurante, uma floricultura, um detalhe em cada canto do mundo que nos faz lembrar quem a gente mais quer esquecer.

Foi assim quando eu passei pela frente da floricultura em que te comprei o primeiro buquê de rosas. Foi assim quando eu escorei a cabeça no canto do vidro durante a viagem, e a playlist parou na musica que eu cantei no teu ouvido na primeira vez que te abracei. Foi assim quando eu me olhei no espelho e vi que você tinha tatuado no meu peito tudo isso o que eu ainda sinto por ti, para eu nunca mais me esquecer.

Parece que de uma hora para outra tudo passou a me lembrar você. Os filmes que a gente viu são aqueles os que passam na tevê e me fazem lembrar de quando eu dancei com as minhas mãos pelas tuas coxas naquele domingo no cinema. O táxi tem encurtado o caminho do trabalho para casa e de casa para o trabalho pela rua da tua casa, e isso só me faz lembrar dos sorrisos que dei ali – a gente deitava no sofá para ver tevê e você pegava no sono; meu braço ficava dormente mas eu sorria, você ficava tão linda enquanto dormia. E no rádio do carro sussurram letras que me lembram que eu perdi o grande amor da minha vida e minha mente não consegue esquecer.

É que talvez eu não queria, não sei. Esquecer tem me parecido palavra forte demais, ainda mais por haver carinho e vontade de estar junto. Depois que o efeito da raiva e da desilusão passou eu perdi toda a certeza de que tudo o que eu mais queria era te tirar da minha mente. Talvez seja isso o que eu de fato precise, mas não quero, e desde então tudo o que eu faço é colocar um pouco de ti na minha rotina. Uso o toque do seu celular de despertador, preparo o seu café e coloco dois pratos na mesa em toda manhã, mesmo sabendo que ele vai esfriar porque você não está ali pra tomar, e ligo o chuveiro para deitar-me na cama enquanto escuto a água batendo no chão, imaginando que você vai se secar e se atirar em cima de mim. Mas você não vai porque você se foi.

Você se foi e eu não consigo te esquecer porque tenho a esperança de que uma hora você volta; tenho a esperança de que um dia essa mesma coisa que me martela o peito e a cabeça te martele ai também. Li em um livro que quando a gente sente essa coisa que pulsa e lateja por alguém, é amor. E eu não consigo te esquecer porque te amo. Que um dia essa coisa te martele também. E que seja logo.  O café tem esfriado, e isso só me prova o quanto eu me sinto vazio, mesmo o meu coração sendo completamente preenchido por você.

Escrito por Júlio Hermann, colunista do Sábias Palavras.

Escritores-01

FONTESábias Palavras
TEXTO DEJúlio Hermann
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