sábado, dezembro 3, 2016

Você não é gorda, é gostosa

Cresci ouvindo que eu tinha que emagrecer. Cresci ouvindo que nunca fui gorda. E assim fiquei nessa dúvida durante toda a vida.

– Ah, você não é gorda, é gostosa.

– Que nada, você só tem quadril largo! Mas olha essa cintura!

– Seu rosto é tão lindo, precisaria só emagrecer um pouquinho pra perder essa perna grossa.

Essas eram as frases que eu mais ouvia dos outros. Em casa era “se não emagrecer vai morrer sozinha, hein?!” – ainda repetida até hoje pelo meu pai.

Não fosse o feminismo e todo esse empoderamento que ele nos trouxe, continuaria aqui me sentindo infeliz com meu corpo e me achando feia por isso. (Não que eu não me ache mais, mas tenho aprendido que cada dia é uma reconstrução).

Isso sempre foi um tabu pra mim. Mesmo. Sempre me questionei como as pessoas achavam e me diziam que eu era linda se isso não podia ser verdade. Não era possível que eu fosse bonita assim e não namorasse. Todas as minhas amigas na escola namoravam, menos eu. Algo devia estar errado. E estava.

A minha geração não foi criada pra se amar. Nós fomos criadas pra fazer parte do padrão. Para sermos aceitas. E, pra isso, tínhamos que ser a fórmula: magra com cabelo liso.

A mudança interna é muito mais difícil e importante do que qualquer coisa que se tenha que mudar por fora e quanta gente não se importa com isso! Hoje eu estou aprendendo a me amar. A amar o meu quadril largo, a minha cintura fina, minha barriguinha, o meu peito e a minha bunda grande. O medo de falar sobre isso sempre foi o fato de as pessoas acharem que eu só tava ali querendo confete. Quando, na verdade, era uma luta minha comigo mesma, que sempre me fazia sofrer calada. E ainda é.

Agora quando escuto algum elogio, eu tento acreditar.

FONTELugar de Mulher
TEXTO DEBruna Tenório
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