Você é capaz de perdoar!

Perdoar vale, sim, a pena. Sabe por quê? Porque o perdão é uma ferramenta necessária para a evolução da humanidade. No século passado, a França brigou com a Inglaterra, que lutou contra a Alemanha, que guerreou com os Estados Unidos, que bombardearam o Japão, que atacou a China, que teve rusgas com a Rússia. E nem por isso o mundo parou, graças ao perdão. As nações, se ficam isoladas, progridem mais devagar ou simplesmente não evoluem.

Entre as pessoas ocorre coisa parecida. Com o perdão, o conflito é superado e a vida continua, mais leve e melhor. Não é só uma questão de generosidade. É questão de admitir que todos erram, às vezes sem intenção, às vezes por pura fraqueza. E saber que, concedendo o perdão, você tem muito a ganhar, inclusive do ponto de vista de seu bem-estar emocional e físico.

Oferecer a outra face

Nas religiões, a ideia de perdoar é bem antiga, apareceu antes mesmo do cristianismo. “No Yom Kippur, o Dia do Perdão, a gente jejua e faz uma manifestação de remorso pelo que fizemos de errado. É o dia mais importante do calendário judeu, porque é impossível viver sem perdão”, diz o rabino Henry Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista.

No catolicismo, que herdou parte da doutrina judaica, o perdão está em uma das principais orações repetidas pelos fiéis, o pai-nosso. Mesmo assim, é mais comum encontrar um católico pedindo perdão a Deus do que oferecendo perdão a um vizinho briguento. Os cristãos ensinam que, para quem pede perdão, é indispensável o arrependimento sincero. Nas religiões orientais, como o budismo, o perdão é mais humanizado, porque as fraquezas humanas são consideradas parte do jogo. Assim, perdoar outra pessoa também é uma forma de admitir e assimilar nossos próprios erros.

Na prática, seguir a ética das religiões não é tão fácil assim. “A gratidão e o perdão são sentimentos de pessoas muito nobres, que estão dispostas a compreender o outro”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Junior, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.  Aprender a perdoar está na lista das tarefas complicadas, que exigem dedicação, mas que trazem aquele gostinho especial das empreitadas difíceis: leveza de espírito, alívio, paz e até benefícios para a saúde.

Ira inicial

É normal sentir raiva, esse sentimento feio que tentamos esconder sempre que dá. Desabafe, grite, chore e conte para alguém de confiança, o motivo da sua raiva. Fingir que nada aconteceu e guardar a ira só para você não ajuda em nada.

Em um segundo momento, é hora de relembrar a história e tentar entender o que aconteceu. É bom recordar os fatos sem se vitimizar. “Se a pessoa precisa perdoar alguém, é porque se sentiu agredida. É preciso, então, pensar: eu fui mesmo agredido ou só me senti agredido? Porque muitas vezes as pessoas se sentem agredidas sem terem sido de fato”, diz Wimer.Outra dica é dosar sua expectativa em relação aos outros.

E nada de se colocar no papel de coitadinho. “Perdoar o outro que me magoou é reconhecer em mim onde foi que eu negligenciei”, diz a psicóloga Adriana Carbone. “No geral, alguma coisa eu fiz ou deixei de fazer para que o outro fizesse o que me chateou. Se eu dei confiança demais para uma pessoa e ela abusou, não é apenas porque ela é uma traíra, mas também porque eu dei espaço. Mas atenção: chamar a responsabilidade para si é diferente de se culpar. Se você olha para dentro de si, naturalmente vai enxergar uma série de limitações. A partir de uma autocrítica profunda, você aumenta sua dose de autoconsciência e vai dissolvendo seus erros”, diz o monge Ricardo Gonçalves.

Ver o outro lado

Depois que já relembrou a situação e entendeu direitinho seu papel, vale a pena dedicar um tempo para refletir sobre a atitude de quem feriu você. É a velha história de se colocar no lugar do outro. E muitas vezes as pessoas que nos magoam não pedem perdão. Elas podem simplesmente nem ter se dado conta de que nos machucaram ou são simplesmente inseguras.

Mas atenção: não é o caso de se policiar e querer perdão por tudo. Nos pequenos atrasos ou deslizes cotidianos, um pedido de desculpas resolve. Sim, preste atenção na maneira como muitos de nós usam as duas expressões, com significados ligeiramente diferentes.

É bom ter em mente que, em princípio, tudo pode ser perdoado. Mas é claro que isso exige que cada um flexibilize seus limites pessoais e esqueça palavras como “nunca” ou “sempre”. Para perdoar de verdade, abra mão de preconceitos. Se você não é do grupo de pessoas superflexíveis, considere o perdão um desafio e vá em frente. E, pode reparar, em matéria de perdão, quanto maior o esforço, maior o ganho.

Lições para o futuro

Extrair ensinamentos positivos daquilo que até pouco tempo atrás parecia uma tragédia é o passo seguinte. É assim que o trauma é superado: deixando de olhar o passado e usando o aprendizado para situações futuras. Isso não significa esquecer o que ocorreu, mas interpretar o fato de outra forma.

Mais uma vez, há algumas dicas para saber se no fundo, o rancor já passou. Primeiro, verifique se você ainda tem raiva ou se deseja se vingar do agressor. Se a resposta for sim, ainda que discretamente, você ainda não chegou lá. A indiferença também não resolve.

O ideal é que ambos, vítima e agressor, se considerem no mesmo patamar. A terapeuta familiar Maria Amália Faller Vitale, professora da PUC de São Paulo, ilustra a situação com uma metáfora: o agressor tem uma dívida moral com a vítima. Se a vítima nunca o perdoar, vai continuar sempre endividado, com uma conta impagável. Mas essa é uma conta diferente, pois o pagamento da dívida depende do credor, e não do endividado.

E a reconciliação?

Cabe a você decidir se quer se reconciliar com quem o feriu. “O perdão não significa que eu vá voltar a me relacionar com a pessoa. Se ela faz coisas que não me agradam, eu me afasto”, diz o psicólogo Alexandre Rivero.

O teste final para saber se seu coração perdoou mesmo o agressor é, segundo a receita do psicólogo Frederic Luskin, recontar o episódio depois. Se de repente você perceber que deixou de ser a vítima e passou a ser uma espécie de protagonista da sua própria história, alguém que enfrentou a mágoa e ainda conseguiu ficar em paz consigo mesmo, você pode acreditar que encontrou o pote de ouro atrás do arco-íris.

Os benefícios não param por aí. A saúde também sorri para quem perdoa. “A falta do perdão gera mágoa e sentimentos que deixam feridas abertas dentro das pessoas. Quando falamos em perdão, falamos em fechar feridas”. Um estudo publicado por Fred Luskin mostra que quem exercita o perdão fica menos nervoso, menos estressado, tem maior vitalidade física e mais confiança na sua capacidade de lidar com os problemas da vida.

 

Reportagem: Redação Vida Simples – Edição: Lígia Scalise

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