Viver é desaprender. O que importa é querer, o resto a gente aprende

Viver é desaprender. O que importa é querer, o resto a gente aprende
Por: Rebeca Bedone
Publicado originalmente da Revista Bula.

 

Certa vez, a vida acordou chuvosa. O dia amanheceu escuro e você se arrependeu de sair de casa sem o guarda-chuva. Seguiu andando apressado entre pedestres escondidos em si mesmos por causa da brisa congelante da manhã cinzenta; pulou poças d’água e solidão que encontrava pelo caminho, e correu para a estação de metrô que o levaria ao seu destino.

Em pé na plataforma, aguardando o próximo trem porque perdera o anterior, observou que ao seu redor só havia gente calada. Olhou para o seu lado esquerdo e viu uma menina com fone de ouvido balançando a cabeça muito lentamente, com o olhar pequeno e distante. Olhou para o lado oposto e encontrou um senhor de roupas simples; sua pele envelhecida de muitos anos sob o sol revelava seu vigor esmorecido, e sua mão direita se apoiava na bengala que parecia suportar sua própria existência.

Ao olhar para frente, viu o reflexo do seu rosto no vidro do trem que acabara de chegar. Encontrou uma expressão semelhante a de seus companheiros de viagem. Ao sentar-se dentro do vagão, pegou o celular e começou a digitar no bloco de notas: “Para onde estou indo?”.

Tem momentos em que a nossa vida chega ao limite. “Não aguento mais!”, você se lamenta consigo mesmo. Estamos cansados de procurar o sentido das coisas e de tentar entender o que parece não ter explicação. A humanidade se destrói em guerras estúpidas enquanto seu mundo interior está de ponta cabeça. São tantas cobranças, e ainda tem muita gente competitiva puxando o tapete do outro bem na nossa frente. A conta está cada vez mais cara.

Parece que vivemos em um trem lotado de pessoas que mal se olham. Há quem não respeita os assentos para idosos e gestantes. Estamos tão próximos uns dos outros, mas, ao mesmo tempo, tão distantes.

O trem segue seu rumo pré-determinado e você se inquieta. Será que a vida é só isso mesmo? Essa rotina sufocante enquanto se passam os nossos melhores anos?

É verdade que nem sempre encontraremos exatas respostas a tantos questionamentos. Porém, um dia, curiosamente aprendi que podemos mergulhar fundo nessas questões através dos nossos sonhos.

Foi assim que pedi minha licença poética… Pedi à vida que me permitisse reinventar dores, preencher ausências e pintar mistérios. Mas o que eu não sabia é que nessa viagem eu não estaria sozinha.

Pelas palavras por onde andei, conheci pessoas que também se emocionam com a simplicidade da vida. Encontrei você; e, juntos, desembrulhamos nossos porquês e os transformamos em poesia. Voamos em espaçonaves invisíveis, imbatíveis. Choramos. Rimos. Conhecemos a esperança na sua forma mais pura e sincera.

Em nossa viagem, observamos os mínimos detalhes. A solidão ganhou vida com a arte. É como o ipê rosa transformado em poema e o sol que nasceu dando bom dia à nossa saudade. Somos o ‘homem anoitecido’, de Manoel de Barros, que se sentia um trapo social. Ele saiu da sua angústia ao amanhecer nele mesmo. Porque somos o pincel que faz nascer o arco-íris depois da chuva. Somos o grito de fé pro silêncio cansado nos vagões de trem ao fim do dia.

Eu tinha um sonho fantasioso, quase impossível; eu queria escrever. Contar histórias. Hesitei por um tempo, até o dia em que as palavras de Aldous Huxley causaram um turbilhão de emoções dentro de mim: “Você nunca sentiu a sensação de ter em si alguma coisa que, para se exteriorizar, espera somente que você lhe dê a chance? Uma espécie de força excedente que você não esteja utilizando, algo assim como aquela água toda que se precipita na cachoeira em vez de passar pelas turbinas?”.

É isso. Não importa se às vezes não sabemos para onde iremos; já aprendemos a partir. Não temos medo da chuva. A vida é uma viagem incrível demais para deixarmos de vivê-la. E, apesar de estarmos perdendo trens, sempre tem outro vindo.

A cada trem que chega não somos mais os mesmos. Por mais difícil que seja a compreensão da miséria no mundo e de nossas próprias incertezas, ainda temos a capacidade de acreditar. De sonhar. Porque o que importa é querer, o resto a gente aprende.

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