Viver é abrir a janela da alma para olhar a vida lá fora

Por: Rebeca Bedone
Publicado originalmente da Revista Bula.

 

Nessa época, quando estamos perto de agradecer nossas conquistas e renovar nossos desejos para o próximo ano, é normal surgir alguma melancolia. É que abrimos a janela da alma para enxergar a vida lá fora. Com o olhar que vem de dentro, sabemos o que temos; mas também reparamos no que perdemos e o que nunca tivemos.

Dia desses, uma moça me falou que não estava animada. Ao lhe perguntar por quê, ela contou que será a primeira vez que passará o fim de ano sem o seu pai.

Do universo secreto de cada um de nós, há um poço de desilusões, desamores ou desconfiança. Lembrando daquela moça e sua história, comecei a pensar o que é felicidade, afinal, se nem sempre nos sentimos completos?

Podemos ter um casamento feliz, filhos saudáveis e viagens em todas as férias, mas sermos frustrados no trabalho. Podemos ter destaque profissional e amigos para toda hora, mas o casamento acabou e, junto com ele, foi-se embora toda alegria do amor. Também podemos ter uma família unida e não termos dívidas no banco, mas alguém muito próximo e querido descobriu recentemente ser portador de uma doença fatal.

Tom e Vinicius cantaram suavemente que “tristeza não tem fim, felicidade sim”. A gente trabalha o ano inteiro. A gente faz certo e faz errado. A gente batalha por um momento de sonho. E, quando chega dezembro, na época em que deveríamos apenas agradecer e festejar, vem aquela angústia pelas coisas que não correram bem, ou pela ausência do que um dia se fez presente.

Por isso, hoje estamos aqui. Ao relembrarmos nossas dores, abrimos caminho para o futuro. Unidos em pensamentos tristes e alegres, avistamos a ponte de coragem que nos espera para o próximo ano.

Nem mesmo a falta de resposta a uma mensagem enviada com tanto afeto, ou a ausência dos braços que outrora nos abraçaram; nem mesmo a bronca do chefe, ou a ingratidão daqueles que não reconhecem nossa amizade; nem toda desavença, intriga ou morte que por ventura a vida nos traga, nada disso irá nos diminuir diante de nós mesmos. Estamos unidos por nossas dores de cada um e de todos nós. Somos gente que conquista a felicidade devagar, dia após dia, com garra e vontade.

Como disse Fernando Pessoa, “a minha tristeza é sossego, porque é natural e justa. E é o que deve estar na alma”. Nossa alma é como um pastor que conhece o vento, o sol e a chuva. Nas estações da vida, aprendemos a sentir e a olhar.

Repare. Há felicidade em todos os lugares: o rabinho agitado do seu cachorro ao te receber; o cheiro do café quentinho; a criança que aprende a falar. O livro novo que chega pelo correio; a gentileza feita por um desconhecido; o amigo distante que lhe faz uma ligação.

Pense em uma canção alegre. Agora seus pés deslizam debaixo das estrelas e seus ouvidos não se importam com o barulho lá de fora. A brisa da noite e o aroma das flores por onde você dança lhe prendem a atenção. Então você pendura suas dores no varal da sua alma enquanto se delicia em sua valsa particular.

Agora sorrimos de verdade. A felicidade pode ser efêmera, mas ela sempre volta. Assim, o ano começa a partir. A tristeza nos dá um descanso porque somos felizes quando suportamos nossas dores.

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