Viaje! O que você viver ninguém poderá roubar

Por: Lara Brenner
Publicado originalmente da Revista Bula.

Nunca imaginei que um homem inteligente como Aurélio (aquele do dicionário!) pudesse ser tão pouco criativo. Segundo ele, viajar é “percorrer em viagem; viajar terras: andar por muitas terras; fazer viagens; andar em viagens”. Ora essa, onde já se viu tanta pobreza de definição? Se eu pudesse definir o verbo viajar, dedicaria a ele um pergaminho inteiro. Um daqueles enormes, que se desenrolam por metros e metros como tapete de letras cursivas e saudosas. Dedicaria a este único verbo a gratidão e o amor, a alegria e o encantamento.

As estranhas palavras que dançam nas línguas dos gringos em fonemas curiosos são, por si sós, uma bela lição. É como ser bebê novamente e passar pela provação de tentar repeti-las e compreendê-las. As diferentes línguas e suas entonações podem contar as principais características daquele povo: a severidade do alemão, a sofisticação do francês, a musicalidade do árabe, a malemolência do italiano, a assertividade do japonês, o pragmatismo do inglês… Um bom leitor de mundo é capaz de decifrar os enigmas de um povo pela forma como ele se comunica!

Quem são essas pessoas que aprenderam a esconder suas almas coloridas sob burcas pretas? Quem são os andarilhos que abriram mão de seus lares em troca da liberdade de caminhar eternamente? Que homem é esse que vive apressado nos cafés, a contar os minutos em seu relógio caro que lhe suga toda a paz? Quem são todas essas pessoas com as quais dividimos o mesmo planeta, mas cuja existência teimamos em ignorar? Olhar para o outro com empatia e curiosidade é um terreno fértil para a compreensão de que a vida não gira apenas em torno de você . É a chance de analisar a si mesmo pelos olhos do mundo e entender a imensidão humilde das almas que perambulam em vidas tão diferentes.

Viajar pode mudar uma vida por completo, de ponta-cabeça. Conhecer outros lugares é um exercício de humildade, tolerância e reverência. Há alguns cantos que parecem ter sido esculpidos por Deus ,especialmente para aquele seu minuto de reflexão, em que tudo parece congelar enquanto você desvenda o mistério da vida ou o segredo da felicidade. É a chance de perceber que existe um incrível universo além-umbigo e que o mundo é tão vasto quanto miúdo, pois somos tanto diferentes em hábitos e traços físicos, quanto iguais em dores, angústias e alegrias.

A bagagem de uma viagem é a mais rica que se pode carregar, um banho de cultura que renova corpo e alma, abrindo os olhos para o que sequer se sabia existir. Há viagens parecidas com uma cirurgia de catarata: os olhos estavam ali o tempo todo, mas simplesmente não enxergavam o suficiente. Um viajante se torna um inquieto cidadão do mundo e, como tal, passa a enxergá-lo em toda sua complexidade e dinamismo.

Viajar nos faz pensar em questões severas e humanas muito mais do que estamos acostumados em nosso cotidiano, quase sempre limitado. Cheiros, sons, cores e sabores narram a história de indivíduos, povos, religiões, motivações, sonhos e ídolos. Tantas obras de arte, parques, ruas e construções contam uma verdade universal: alguém passou por aqui e deixou sua marca na eternidade. O mundo de hoje é uma grande colagem dos que insistiram em deixar seu legado para que outros os compreendessem. Quem sabe, assim, possam seus visitantes um dia compreender a si mesmos.

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