Vendo a vida passar

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Vendo a vida passar

 

Observava a vida de dentro de sua timidez e com seu fone no ouvido via a vida passar. Homem moderno e sonhador adorava sair pela cidade sem destino certo, sem rota que o prendesse, tudo que precisava era de um fim de tarde, seu Ipod e um horizonte ilimitado para explorar. Sozinho com suas músicas conseguia meditar, observar, criar asas e viajar. O mundo era normal por fora e ele estranho por dentro, mas não importava ser como todo mundo pois vivia de exceções e se embriagava com suas canções e saudosismo. Sua estranheza era suficiente para ele mesmo. Porque a música de dentro não soava dissonante, não irritava, não deprimia como certas realidades de fora. Quanto mais se perdia do mundo mais se achava em si mesmo.

Corria todas as tardes não só porque era saudável ou porque tinha adquirido o hábito do  pai, mas porque precisava da cidade, dos arredores, dos ares, das paisagens, de sua observação em uso. Porque a sensação de fuga era boa, porque precisava sentir o vento e refletir sobre o tempo, sobre tudo. Corria porque precisava ver a vida passar. Corria dos seus medos e frustrações, na esperança de encontrar um amor novinho em folha pelo caminho que aceitasse suas diferenças e lhe amasse por elas. Corria porque as tardes precisavam de sua admiração.

Passava por prédios, parques, casas, pessoas, pelo mar e ele contagiado por sua trilha sonora, milimetricamente escolhida e indiretamente composta para seu contexto, vivia seu próprio videoclipe. Com seu fone no ouvido via a vida passar e se certificava de que era bom estar sozinho com suas canções,  fantasias e ilusões que diziam dele mesmo e participavam de sua história. Era bom estar perdido em pensamentos, viajar sentindo o vento e assistir o entardecer. Era ele, era sozinho, era sem regras, era de tarde, era de dentro pra fora. Só queria estar ali de fone no ouvido vendo a vida passar.

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