Vampiros emocionais

Sabe aquele tio, que na verdade nem tio é, só é casado com a sua tia, e que não perde uma oportunidade de ser extremamente indelicado e ofensivo com você?
No jantar de Natal, com toda a família reunida, ele faz aquela piadinha regada de preconceito sobre homossexuais bem no ano em que você saiu do armário para a sua família.
Ou faz um comentário ofensivo sobre pessoas tatuadas, alto o suficiente para que você e suas 9 tatuagens escutem.
Ou te chama indiretamente de puta, vagabunda, e todos os piores nomes, por você estar usando uma mini saia, ou por ter ido morar com o seu namorado, ou por apenas existir.
Os encontros familiares, que deveriam ser felizes e agradáveis, se tornam um martírio para você, já que a cada reunião, uma nova oportunidade para uma nova ofensa disfarçada de piada, crítica, opinião ou crença. 

Sabe aquela amiga de infância que você coleciona agradáveis memórias mas que conforme os anos foram se passando ela foi ganhando um estranho gosto por te botar pra baixo?
Pequenos comentários seguidos de risadinhas, seguidos de “tô brincando”, seguidos de qualquer desculpa que faça com que você aceite pacientemente suas crueldades. Mais uma vez. E mais uma. E mais uma. E mais até enquanto você permitir.
Você tira uma nota boa na prova e a amiga ao invés de te parabenizar, comenta que a dela foi melhor.
Você tem um encontro, ao qual ela obviamente não foi convidada, mas a amiga chora e faz chantagem emocional até você desistir de ir.
Você ganha um presente maravilhoso e a amiga “acidentalmente” deixa cair no chão.
Sempre que você está feliz passa magicamente a não estar no momento em que a encontra.

Sabe aquele seu colega de trabalho que sempre dá um jeito de te boicotar?
Sempre que você vai abrir a boca numa reunião, na frente do chefe e de todo o resto da equipe, ele imediatamente te corta.
Sempre que você dá uma ideia, a sua ideia por melhor que seja, é ruim, é péssima, é burra. E quando é boa, ele dá um jeito de tomar o crédito por ela.
Sempre que você dá uma vacilada e chega depois do horário ou não entrega o relatório no tempo certo, ele faz questão de ir até o chefe fazer a sua caveira.
Ele tem olhos de coruja em cima de você. Sorrindo quando te vê, mas esperando a primeira oportunidade de te apunhalar pelas costas.

Sabe aquele namorado que passou o namoro inteiro te proibindo de sair sozinha, de ter amigos, de usar decote/saia/short, invadindo seu e-mail, seu Facebook, suas mensagens, dizendo para deletar Fulano, para parar de falar com Ciclano, te botando pra baixo, te chamando de gorda, de feia, de puta, e quando você finalmente decide terminar, ele te relembra “por acaso” das fotos que tem de você linda, maravilhosa e completamente pelada?
Ou faz um escândalo e diz que vai se matar.
Ou faz um escândalo e diz que vai te matar.
Ou faz um escândalo e diz que vai matar você, ele, o Fulano, o Ciclano e quem mais passar pela frente também.
Sabe esse cara que te trata feito objeto, feito propriedade dele, feito um completo nada? Sabe, né?

E você não revida. Você nunca revida. Você não tem nem forças para revidar.
E não sabe o porquê. Você finge, contrariada, que não escutou, que não viu, que não se magoou.

E por que você faz isso?
Você faz isso porque de alguma forma o jogo sempre vira contra você.
De alguma forma você acaba saindo como a ovelha negra da família por arrumar briga no Natal, ou a ingrata por não estar ao lado da amiga que cresceu com você, ou o funcionário que não sabe trabalhar em equipe, ou a namorada malvada que não se esforça para compreender o namorado de longa data que sua família tanto adora.
De alguma forma ninguém mais, nem seus amigos, seu chefe ou sua família, conseguem enxergar os abusos que por tanto tempo você tem engolido a seco.
Para os outros, que não estão sentindo na pele, nunca é nada de mais.

E de tanto que tentam te convencer de que não foi nada, até você começa a acreditar.
Talvez você esteja mesmo sendo injusta, ingrata, exagerada, louca.
Talvez seja só um mal entendido.
Talvez seja só o jeito da pessoa.
Talvez esteja tudo bem em tomar umas mijadinhas de vez em quando, né?
Talvez esteja tudo bem em aguentar calada insultos, covardias, rasteiras, preconceitos, chantagens e abusos, né?
Não. Não é.

Vampiros emocionais não sossegam enquanto não sugam suas vitimas por inteiro. Não há piedade. Não há compaixão. Eles querem tudo. Eles querem cada gota de você.
Enquanto restar um pingo de felicidade, vitalidade e energia em você, lá estará ele, sorrateiro, cruel e duas caras. Esperando uma brecha, um momento, uma oportunidade. Esperando você respirar, você se distrair, você sorrir, você se sentir feliz, você esquecer da última vez em que se sentiu miserável por causa dele.
E assim que você estiver bem, ele surgirá para te mostrar que você pode se sentir ainda mais miserável.
E claro, tudo muito discretamente, que é para ninguém ao redor perceber e ele continuar mantendo seu papel de vítima da situação.

Mas aqui vai uma verdade que ninguém te fala: você não tem a menor obrigação de aguentar isso.

Quanto vale a sua saúde mental? Quanto vale o seu bem estar emocional? Quanto vale você?
Vale a pena não tomar uma atitude para agradar terceiros enquanto você murcha feito uma flor velha?
Vale a pena dizer que é para não se estressar enquanto você se estressa calada e sozinha?
Vale a pena se desfazer aos pouquinhos, se sentir cada vez mais infeliz e cansada, por motivos que às vezes nem você sabe ao certo?

Não adianta você achar que uma hora vai parar, uma hora vai mudar, uma hora vai voltar a ser o que era. Não adianta você se recusar a enxergar que por mais que tenham existido momentos agradáveis, eles foram embora junto com a pessoa que você achava que era uma coisa mas na verdade é outra.
Não adianta você se prender ao que você gostaria que fosse e ignorar o que é.
Não adianta você se esforçar ao máximo para agradar achando que com isso a pessoa se sentirá satisfeita e irá parar.

Vampiros emocionais não param. Eles são parados. 
Ou você decide tirá-los de vez da sua vida, ou nos casos de impossibilidade, se impôr, ou eles continuarão subindo em suas costas e fazendo mais peso do que você pode aguentar.
E você sabe o que diz o ditado: em cavalo manso, todo mundo quer montar.
Já está na hora de você dar uns belos coices e mandar o morcegão de volta pra tumba de onde nunca deveria ter saído.

FONTEDeu Ruim
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