“Vai. E se der medo, vai com medo mesmo!”

Por: Rebeca Bedone
Publicado originalmente da Revista Bula.

 

Todo homem e toda mulher. Todo idoso e toda criança. Todos nós já sentimos medo. Pavores pequenos ou grandes nos acompanham durante a nossa existência: o medo dos raios da tempestade, do professor bravo e da doença inesperada; o receio de mudar a vida, de se entregar ao amor ou de enxergar a si mesmo.

Este último, o medo de enxergar a si mesmo, é mais difícil de reconhecer. Ele seria, por exemplo, o abandono de nossa essência para criar um personagem que não conhecemos em profundidade, pelo simples desejo de sermos aceitos pelos outros, por influência do consumismo, ou pela competição de quem é mais feliz. É como precisar de curtidas em suas “selfies” vazias para se afirmar a si mesmo. Nesses casos, somos mais a sombra projetada de nós mesmos do que a luz que nos ilumina.

Algumas pessoas sobrevivem a essa superficialidade. Entretanto, outros de nós mergulham em nossas profundezas e sentimos a dor crônica de questionamentos internos e externos: nossas mentiras, culpas e perdas; as guerras que fazemos e a autodestruição do ser humano. Afundamos em nosso vale de lágrimas até encontrarmos, no subterrâneo da alma, os medos mais ocultos.

Ter medo não é de todo ruim, pois ele nos impulsiona e nos desafia. O problema é quando a ele nos entregamos e deixamos a vida estagnada, como o lutador que fecha a guarda e não reage. Escondidos em falsa segurança, ofuscamos o mundo a nossa volta e aqui dentro.

Em “Demian”, de Hermann Hesse, o personagem Sinclair entrega-se aos seus medos e nos leva junto. Enclausurado em sonhos e desilusões, como um sonâmbulo em si mesmo, perdido de seus anseios e sua coragem, surge-lhe uma angústia sufocante. Ao lado do protagonista do livro, em alguns momentos, andamos pelo lado sombrio da vida, entre a dor e a saudade, a tristeza e o frio.

“Quando o medo nos quer dominar, é necessário livrar-nos dele”. Assim, iniciamos um combate mental contra o medo escondido dentro da gente. O medo de compreender o mundo em que vivemos, este mundo que se mostra dividido entre o céu e o inferno, a ternura e o sofrimento, a bondade e a maldade, o amor e o ódio, a redenção e a culpa. O mundo “luminoso” e o mundo “escuro”.

A consciência desta dualidade em que vivemos nos traz para dentro de nós mesmos. Somos indivíduos únicos em processo contínuo de amadurecimento e autoconhecimento; seres humanos tentando aprender com seus erros. É como passear pela neve gelada da alma com pensamentos febris, e viver aquilo que brota espontaneamente dentro da gente.

É isso… Abra a guarda e confronte-se num campo de batalha pessoal, em sua luta particular contra os próprios medos. Sinta o suor que lhe escorre salgado pelo rosto. As feridas invisíveis sangram. As incertezas indizíveis gritam!

Ligue para aquela pessoa com quem você quer conversar. Fale o que você acha que não está certo. Peça demissão de um emprego sufocante. Encare a barata que vagueia em sua alma. Dê um Jab direto na cara da insegurança. E cruze o limite do destino rompendo a casca do ovo que lhe prende a vontade de voar.

Enfrente seu pior inimigo: você mesmo. Lute, pois a vida pode não acontecer para os que têm medo.

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