Um sonho: acertarem meu nome

Ao longo da vida aprendi uma coisa: sempre que vou a um restaurante que tem espera, dou o nome de quem estiver comigo, torcendo para que seja a Marina, o Leonardo, a Fernanda, o Pedro, a Bárbara ou qualquer outra pessoa de nome fácil. Porque “Ruth” vira:

– Oi?

– Ruth.

– Lourdes?

– Não, Ruth.

– Lucy?

– Deixa pra lá, anota Fernanda.

Ruth nem é tão difícil. Tá na bíblia e tudo. Eu imagino a vida de quem se chama Georgiana, Homero, Marjorie, Lázaro, Agnes, Jerônimo, Tainara, Bartolomeu. Deve ser uma emoção a cada dia que passa.

Mas a coisa piora muito na hora da grafia. O copo do Starbucks e o cadastro na loja não cansam de nos surpreender. Ruth vira Rute, vira Ruty, vira Ruthe, já virou ate Hute. A criatividade não tem limites. Quem tem letra dobrada também já quase desistiu de ler o nome correto? Não é, Stella? Ou Stela? Estela. Não é, Anninha? Não é, Michelle? Não é, Marcello?

Também há os nomes trocáveis. Pode não ter nada a ver um com o outro: as pessoas trocam como 6 por meia dúzia, sem nenhum constrangimento. Ruth vira Raquel. Leandro vira Leonardo. Marina vira Mariana.  Gilberto vira Humberto. Mathias vira Matheus. Melissa vira Larissa. Eu até já atendo por Raquel.

Se a grafia for em outra língua, já era, ninguém nunca te deixará ter seu próprio nome serenamente. Giulia sempre será Júlia. Paola sempre será Paula. Fabrizio será Fabrício.  Guillermina será Guilhermina.

Mas acho que ninguém sofre mais do que as pessoas que têm (ou não têm) acento no nome e  as pessoas das letrinhas amaldiçoadas. Os acentos nunca darão certo: Márcia será Marcia e Marcia será Márcia. Lei de Murphy. Assim como o Maurício. A Eugenia. O Cláudio. A Mônica O Fabio.  E as letrinhas amaldiçoadas, que nunca deixarão algumas pessoas viverem em paz. Isabela ou Izabela? Luiza ou Luisa? Carolina ou Caroline? Débora ou Deborah? Cátia ou Kátia? Raquel ou Rachel? Tiago ou Thiago? Vagner ou Wagner? Vanessa ou Wanessa? Tais ou Thais?

E nessa maravilha de riqueza cultural que é o Brasil, o que dizer dos nossos sobrenomes? DEUS NOS ACUDA. É japonês, libanês, italiano, espanhol, alemão, polonês, coreano…  Aí quase ninguém se salva. Se acertarem a grafia, erram a pronúncia. Manus, que se diz Mânus, vira Manús. Ou Manos. Ou Ramos. Ou qualquer outra coisa.

Tenha pena dos meus amigos: Bonuccelli, Beugger, Yamazaki,Wirz, Schefer, Steinmann, Kikuchi, Zangerolami, Ormezzano, Duvivier, Yussumassa, Buchaim, Bittencourt, Tagliaferri, Zavanella, Hotz, Voivodic, Kraichete, Scaquetti, Gitelman, Grohs, Gerlack, Neustein, Chiarello, Yazbek, Laupman, Lisauskas. É uma batalha que já começa perdida.

E o pior é que a gente não queria chamar Maria da Silva. Apesar de Maria da Silva ser lindo, a gente gosta mesmo é do nome que tem. E só queria ver, uma vezinha ou outra, ele escrito bonitinho. Pronunciado bonitinho. Do jeitinho que nossos pais escolheram. Mas isso é algo um tanto quanto sonhador. Do tipo “ mano, imagina que loko, que da hora seria se eu dissesse meu nome e alguém escrevesse certo”. Rola até uma adrenalina.

Por enquanto continuamos aqui, convivendo com esses nomes que não são nossos, mas que já vieram tantas vezes para os nossos cadastros, que até já parecem velhos amigos.

Beijos,

Rute Manos

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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