Uma vez, na faculdade de jornalismo, bati boca com um professor que insistia que a pílula era uma invenção do capitalismo para permitir a entrada da mulher no mercado de trabalho ao adiar ou evitar a gravidez. Ela também regula o ciclo menstrual, permitindo jornadas mais consistentes. Fiquei irritadíssima, primeiro porque eu não concordava, segundo porque eu não conseguia argumentar contra aquele homem tão respeitado entre as figuras da esquerda jornalística.

A minha memória, uma sádica, me fez lembrar desse momento de mal estar quando uma amiga me disse que queria saber mais sobre pílulas. Ela disse que se achava mal informada, e eu só conseguia pensar “quem sou eu pra falar qualquer coisa”.

Pensei de novo e vi que o que eu sei mesmo é que o importante mesmo é buscar estar bem informada, e pra mim isso significa se sentir um pouquinho desconfortável com aquilo que você sabe, mesmo tendo pesquisado bastante. Achar que não sabe o suficiente é sempre bom.

Parei de tomar pílula ano passado, após 14 anos de uma relação de só ganhos, inclusive ganho de peso. Comecei a tomar assim que menstruei porque eu engordava muito a cada ciclo e tinha muita acne, e a gineco na época me passou Selene. Nunca troquei, nunca tive reação além da retenção de peso e tive duas pausas desastrosas, horrendas. E foi justamente pensando nessas pausas que decidi parar.

Toda a minha vida reprodutiva foi regulada pelo mesmo hormônio artificial e isso me incomodou bastante de repente. Quando comecei a tomar, não me conhecia, não sabia nem que iria odiar Física pra sempre, imagina se saberia o que aquela bula dizia pra mim. No fim, nem sabia como o meu corpo funcionava sozinho. Estudando e lendo sobre feminismo, especificamente sobre as ativistas da saúde feminina na América do Norte, comecei a me questionar porque eu tomava um remédio tão forte por tanto tempo. Decidi parar e foi caótico. Fiquei 4 meses sem menstruar e, quando meu ciclo voltou ao normal, queria matar uns três para aliviar toda a raivinha que crescia no meu coração. Mas pronto, pronto. Passou, passou.

Voltando às ativistas de saúde feminina da década de 1960, é imprescindível falar do livro “Our Bodies, Ourselves” (Nossos corpos, nós mesmos), que salvo engano não tem edição em português. O livro é um almanaque confiável com tudo que é dúvida sobre a biologia feminina escrito pelas incríveis do grupo BWHBC, ou Boston Women’s Health Book Collective.

Outra musa minha, a jornalista Barbara Seaman, escrevia numa revista norte-americana também nos anos 1960 quando percebeu uma correlação altíssima de reclamações de inchaço, ganho de peso, depressão, queda de libido e trombose com a ingestão da recém lançada pílula anticoncepcional. Picada pelo bichinho “tem uma história aqui”, ela fuçou e fuçou e descobriu que os remédios eram vendidos sem as informações de efeitos colaterais na bula. Os médicos achavam que as mulheres não precisavam se preocupar com isso. Barbara e diversas outras mulheres levaram o problema pros salões do Senado dos Estados Unidos, que mudaram a lei, obrigando as farmacêuticas incluírem a bula nas caixinhas, com tudo o que seria importante.

E ainda hoje tomamos hormônio sem saber seus efeitos colaterais. Quem nunca emendou cartelas pra evitar ficar menstruada? E se arrependeu no mês seguinte, mas fez de novo meses ou anos depois. No caso da suspensão da menstruação por até anos seguidos, que é moda entre as meninas da nossa geração seja por pílulas contínuas ou por injeção, ainda não há estudos que dizem se há segurança ou riscos a médio e longo prazo. Mesmo assim, qual é o médico que nega quando a gente pede “doutor, não quero mais menstruar. Me passa aquela pílula que a minha amiga toma?”

O que se sabe com certeza é que a ingestão de certos hormônios estão ligados ao surgimento do câncer de mama em mulheres com ou sem histórico da doença na família.

Estudos mostram que mulheres que tomam contraceptivo oral têm mais riscos de desenvolver câncer de mama, especialmente se esses contraceptivos foram de alta concentração de estrogênio (950 microgramas de etinilestradiol ou 80 microgramas de mestranol) ou com média concentração de estrogênio (30 e 35 microgramas de etinilestradiol ou 50 microgramas de mestranol). A Selene, que eu tomava, é de média concentração. O risco, segundo os estudos, voltam à média após a interrupção do uso. Fora as varizes, coágulos, tromboses, enxaquecas, queda de libido…

No caso do câncer de mama, as reposições hormonais na época da menopausa também são aterrorizadoras.

Moral da história? Leia, leia, leia, leia tudo o que você puder antes de decidir pelo seu método anticoncepcional, seja ele só pra prevenir uma gravidez ou pra cuidar da acne, das TMPs, etc. Encha sua médica de perguntas, cada corpo é de um jeito e o que funciona pra mim pode não funcionar pra você. Seu corpo, suas decisões, suas regras. E se possível, fique em cima do seu histórico familiar. A combinação doenças cardiovasculares + pílula + cigarro é uma bomba relógio.

E o que eu diria para o professor do início do texto, se a discussão fosse hoje? A pílula libertou a mulher da maternidade e casamentos obrigatórios, mas ela é sim fruto de um sistema que privilegia o poder e o prazer masculino. Seja esse homem de direita, esquerda ou a passeio.

 

P.S.: Algumas das referências desse texto:

Confirmada ligação entre câncer de mama e terapia hormonal
Menstrual Suppression Is Too Risky an Experiment

Pill That Eliminates the Period Gets Mixed Reviews
“Your Silence Will Not Protect Yourself”, da Bonnie Spanier, em Feminist Science Studies
“Health Care Activists”, da Kathryn Ratcliff, em Women and Health: Power, Technology, Inequality and Conflict in a Gendered World

 

Escrito por Natália Peixoto.

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