TAXISTAS INSANOS, HISTÓRIAS MEDONHAS E UMA PASSAGEIRA REFLEXIVA

Em minhas rápidas viagens de táxi surgem vivo coisas inacreditáveis, pra contar, rir ou chorar. Ou ambos. Sou uma frequentadora assídua desse tipo de transporte (e mais recentemente da Uber, que serviço incrível). Por vários motivos, desde a torção no pé que me deixou quase dois meses parada e ainda me faz sentir muita dor ao andar pequenos trajetos até as vantagens (inclusive financeiras) de não ter que manter um veículo, que eu usaria praticamente pra lazer aos fins de semana – funcionando em perfeito estado. Quem nunca viveu uma história bisonha durante uma corrida (mesmo que seja um trajeto curtinho como os que faço, que nunca ultrapassam os quinze reais)?

Teve o João, aquele cara defensor da família tradicional, admirador do Bolsonaro e fã inveterado do Malafaia que confessou pra mim – uma completa estranha – que levava uma vida dupla há 20 anos, a esposa estava na iminência de descobrir e ele afirmava que não “conseguia” terminar com a amante Marília. Sim, é muita cara de pau da parte do cidadão. Pior ainda é me pedir conselho sobre o que fazer. O cara tem o dobro da minha idade, pelo menos o triplo das minhas experiências e sou eu quem vou dar o veredicto do caso de safadeza aguda dele? Nem foi preciso, ele terminou a viagem se culpando, ao mesmo tempo em que se fazia de vítima – e prometeu largar a outra e ficar só com a sua mulher, Luana. Fiz acreditar. Nunca mais o vi.

Teve o Marcelo, mais recentemente. E ele me deixou possessa por agir de forma machista comigo. Não entendo muito de rotas e nem de mão de direção, mas quando vou a algum lugar desconhecido eu pesquiso – existem uns engraçadinhos aproveitadores da falta de conhecimento alheio que lucram desonestamente em cima disso. Pedi a ele pra fazer uma rota que já conheço de cabo a rabo (Brasil, Aimorés e Pouso Alto, não tem segredo) – não por ser a mais curta, porque não é – mas por ser a que quase nunca têm congestionamentos. Ele dá um joinha com a mão e logo no primeiro retorno eu o interpelo: “pensei que você fosse virar ali”. Ele diz que é um caminho mais longe e que se fizer o retorno na praça, pega somente a Antônio Aleixo e sobe direto, e o trajeto fica mais “prático” (o que ele quis dizer com isso?) e rápido (como pode uma mulher conhecer uma cidade grande, né?). Falei que sabia e que nem sempre eu vou pelo caminho mais próximo, vou pelo mais livre. Ele se fez de desentendido e seguiu viagem. Paguei vinte por cento a mais, pois a quantidade de semáforos e o tráfego por lá era muito maior. Disse pra ele escutar melhor o seu cliente, porque outra mulher um pouquinho mais enérgica que eu poderia parar o carro assim que ele pegou outro caminho. Ou ser mal educada e simplesmente não querer pagar. Mas que eu não faria nada disso – tampouco reclamar no órgão fiscalizador de trânsito, pois sabendo que ele era regulamentado na prefeitura, ele ia levar um ferro gigantesco. Mas que repensasse um pouco o atendimento que fez. Virei as costas e bati a porta sem dar ouvidos.

E o Rodrigo? Sim, eu olho no documento de identificação do condutor o nome do funcionário, decoro toda vez a placa e vejo se o modelo do carro condiz com o que consta no aplicativo, que uso pra acionar o serviço – foi assim que aprendi a identificar os modelos. Hoje dificilmente erro um (nunca mais disse que queria um Cobalt da Volks, ou um Jetta da Mitsubishi). Porque eu atraio um motorista mais louco que o outro. E eu tenho medo, às vezes. Esse usava umas roupas coloridas como abadás do Cerveja e Cia e do Bloco Pirraça. E uma touca do bob Marley. E um cabelo que batia no meio das costas. Obviamente tingido. Preto azulado artificialíssimo. Uma pessoa assustadora, que falava alto. Mais alto que a rádio gospel cuja estação ele ouvia no talo. Seria talvez uma tentativa de ensurdecer os passageiros? É o que parecia. Mas o pior era a dancinha frenética que ele fazia enquanto esbravejava a plenos pulmões “eu sou de Jesus, eu sou de Jesus, sou de Jesus, sou”. Entre uma faixa e outra, ele me interrogava: eu acredito em Jesus, e você? Amém? Minha cara de apatia era a resposta, mas nunca que eu ia ousar contrariá-lo verbalmente. Fanático como apresentava ser, pra me jogar do carro diante de qualquer discordância religiosa não custava nada. Um verdadeiro Carlinhos Brown do Senhor. Como tudo tem o lado bom, ele era um piloto de fuga imbatível. Sim, ele balançava os bracinhos e dominava o volante com uma destreza jamais vista por um mortal. Saldo dessa aventura: uma corrida trinta por cento mais barata. E o ouvido zumbindo pelas próximas cinco horas consecutivas.

Houve vezes em que sofri assédio (nada além do verbal, ainda bem, porém é um absurdo de qualquer forma). Teve profissional que me contou do casamento recente, do filho pequeno e da vontade de ter uma casa própria. Motoristas auxiliares me contaram da escravidão a qual são submetidos pelo patrão – alguns trabalham até 16 horas por dia. O fato é que toda corrida é uma história nova. Devo ter cara de aconselhadora, boazinha, bobinha, de paciente, de Assistente Social ou Psicóloga. Talvez seja a minha simpatia que transborde. Ou de repente a minha transparência mesmo – a capacidade incrível de me enxergar através de outro ser humano que me aproxima destes totais desconhecidos que, pra garantir o seu ganha-pão, passam por desaforos, assaltos, trânsito caótico durante toda a sua jornada de trabalho (não consigo ter noção do que é isso) – e que estão ali ao meu dispor. Mas que precisam ser ouvidos de vez em quando.

Escrito por Aline Xavier, colunista do Sábias Palavras.

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FONTESábias Palavras
TEXTO DEAline Xavier
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