Talvez você goste de canalhas

Assumir a nossa parcela de responsabilidade sobre aquilo que vivemos é parte essencial de qualquer processo de análise e cura. Muitas das características de nossa alma não são dignas de orgulho. Mesmo assim devemos ter disposição de encarar essa nossa parte mais obscura e entender seus motivos.

A repetição é uma das características mais irritantes da alma. Possuímos memória curta, principalmente em assuntos incômodos. Caso colocássemos numa linha temporal, fizéssemos uma lista com quais foram as últimas coisas que realizamos em uma determinada área da vida, é certo que veríamos uma sequência de repetições. Esse é o trabalho da análise. De tão ingrato, não é surpreendente que tanta gente fuja dela, buscando alívio rápido em farmácias ou ‘bocas de fumo’.

“Talvez você goste de canalhas.” Já tive que fazer essa provocação em um número significativo de atendimentos. Só com um pouco de ironia e dizendo de forma tão contundente, as pessoas passam a prestar mais atenção no quanto são responsáveis por suas vidas. – fulana me traiu; – sicrano é desleixado com meus sentimentos; – zé só quis me comer e foi embora; – maria me abandou no momento que eu mais precisava.

Triste, sem dúvida, mas e você no meio dessa história? Na primeira e segunda vez que isso acontece, sempre cabe a ideia de que fomos enganados. Depois disso, um questionamento tem que ser colocado: “Será que sou eu que procuro por isso?” Do contrário, as donzelas e donzelos indefesos continuarão morando em castelos cercados por monstros em pleno século XXI. A parcela de responsabilidade de cada um na direção da própria vida não deve ser esquecida. É a única forma de assumir algum tipo de rédea na condição trágica da humanidade. Escapar um pouco daquilo que parece ser destino e possibilitar uma narrativa própria sobre a vida.

A questão é que responsabilidade não significa total autonomia. Iniciei esse ensaio com uma palavra estranha para muitos campos da psicologia experimental, mas que é a mais acertada para tratar da prática clínica… da análise, propriamente dita. A palavra é: ALMA. No fim das contas, não deveria haver nada de tão assustador, já que alma é apenas a tradução para o termo que dá prefixo para nossa ciência. Psicologia surge de Psiche, que é [quem diria!?] nada mais que alma. A palavra foi, de certa forma, esquecida [ou barrada] por muito psicólogos por alguns motivos. Apresento, aqui, dois deles.

O primeiro é a proximidade com conceitos religiosos. Alma poderia significar um aspecto transcendental na constituição do comportamento humano. Levando em consideração que a psicologia é uma ciência bastante jovem e com uma fragilidade metodológica, o que faz com que muitas de nossas primas distantes [biologia, física, química… só para citar algumas delas] torçam o nariz para nossas imaturidades e soltem risinhos maldosos sobre aquilo que consideramos importante, não pegaria muito bem ter uma palavra tão esquisita no meio do nosso vocabulário científico. Logo, preferimos fingir que “isso non ecziste”, mesmo que toda a história do conhecimento psicológico tenha sido perpassada por esse termo e que, alma, não seja um conceito obrigatoriamente religioso.

O outro motivo é o fato de que, pensar em alma, dá a impressão de que não temos muito controle sobre ela. Talvez seja o contrário, ela que tem poder sobre nós. Mas quando falamos sobre comportamento, por exemplo, temos uma impressão de controle bem maior. Os comportamentos são nossos, então nós não temos que negociar ou acatar suas vontades. Bastaria reconhece-los e alterá-los. Nenhum psicoterapeuta competente pensa dessa forma. Sabemos muito bem que é complicada essa história de controlar comportamentos. A questão não é bem técnica… é mais publicitária. Não parece muito eficiente dizer que a psicoterapia é uma prática de resultados aproximados. Por isso mesmo, tantos companheiros de profissão andam pulando do barco da ciência e se rumando por um caminho que mais se parece um show de mágica, onde, todos os seus problemas seriam solucionados. Não me preocupo com isso, pelo menos em longo prazo. Em algum momento esses espetáculos serão percebidos como realmente são… ridículos.

Assim como o brilhante psiquiatra Edward F. Edinger, prefiro utilizar o termo “psicoterapia” em um sentido mais amplo. Retomo seu sentido etimológico. Therapeuein, do grego, hoje tratado como “cura”, significava, originalmente, “serviço aos deuses”. De acordo com o filósofo judaico Philo de Alexandria, um grupo de judeus contemplativos, pré-cristãos, chamavam a si mesmos de Therapeuts. O trabalho desses terapeutas era o de curar não apenas o corpo, mas o de também agir sobre a alma das pessoas, curando-as de moléstias terríveis, infligidas por nossas paixões e vícios. Enfim, o que estou dizendo é que psicoterapia significa, na minha prática, serviço à psique. Serviço à alma. E tenho tido bons resultados pensando assim.

Passada essa explicação, eu consigo retornar à ideia de que, talvez, você goste de canalhas e o que você viveu até hoje tem uma participação sua. Na verdade, eu tenho que fazer uma pequena modificação. Pode ser que você, conscientemente, não goste de canalhas, mas alguém aí dentro de você gosta destes relacionamentos difíceis, destrutivos, conturbados. Pode ser a sua alma.

Com o que sabemos hoje sobre a construção da psicologia individual, a ideia de uma natureza totalmente inata é algo um tanto irreal. Somos compostos de todas as vozes que ouvimos, todas as cenas que presenciamos, todas as pessoas que conhecemos. Alguns desses eventos tiveram maior importância, outros foram rapidamente esquecidos, mas cada um deles foi, é ou será parte daquilo que constitui nossa individualidade. Nos construímos ao mesmo tempo em que vivemos. A alma é essa polifonia de vozes, esse parlamento interno.

Com tanta informação fica difícil sermos, então, uma figura muito coerente. Trago dentro de mim a prudência do meu pai nas questões financeiras e trago, ao mesmo tempo, o gosto refinado de minha mãe para escolha do que me vestir. Minha família é progressista, mas tive eu estudar em uma escola conservadora… e por aí vai. Tudo isso vai criando conjuntos, agrupamentos de informações similares, que são fortalecidas ou enfraquecidas pelas emoções vivenciadas. O psiquiatra Carl Gustav Jung deu à essas estruturas o nome de Complexo e, provavelmente, você já ouviu falar em algo como complexo de inferioridade, superioridade ou coisa assim… É um conceito bem maior, mas, para o momento, basta saber isso que eu resumi. É interessante saber também que esses complexos podem ser personificados em sonhos e que podemos fazer isso também no mundo desperto. É aí que a coisa fica mais interessante.

Projetamos aspectos internos no mundo externo. Por exemplo, num breve exercício de memória você conseguirá lembrar-se de alguém que empurra para outras pessoas características que são, na verdade, da própria pessoa que acusa. Você também faz isso, todos nós fazemos. Esse é um dos momentos em que personificamos esses complexos, só que, nesse caso, tiramos a nossa responsabilidade e a jogamos sobre o outro. Que tal inverter essa história?

Desde que eu e meus sócios iniciamos a Descobrindo Sonhos, que é nossa clinica terapêutica, uma pergunta sempre esteve presente em nossos estudos e conversas: Como elaborar formas de entrar em contato com essas inumeráveis personalidades que carregamos dentro de nós? Pretendo citar uma delas, espero que estimule a criatividade do leitor e várias outras surjam em suas autoanálises.

Eu sei que parece fazer pouco sentido, hoje, escrever uma carta para alguém. Com todas as possibilidades de comunicação instantânea, escrever uma carta parece algo romântico demais. Mas e se esse alguém for você mesmo? Ou melhor, esse eu que te parece ter algumas ideias sobre a vida que não são tão compatíveis com a sua forma de entender as coisas. A técnica é bem simples, mas você poderá se sentir um tanto bobo em fazer isso. Não se preocupe, as melhores técnicas em psicologia pedem que percamos um pouco da vergonha.

Serve para conversar com esse seu eu que gosta de canalhas, mas, como eu disse, serve em muitos outros contextos também. Imagine todos os momentos em que você esteve envolvido com essas histórias confusas, esses relacionamentos conflitivos. Descreva para si quais as principais características que você identifica, descreva também quais são os comportamentos que mais te parecem irracionais… aqueles que você nunca faria caso estivesse no controle de suas emoções. Crie um personagem. Dê nome, identifique suas feições, um pouco de sua história… Feito isso, é hora de escrever uma carta para ele ou para ela. Diga tudo que precisa dizer, mas, principalmente, possibilite um diálogo. É muito importante abrir espaço para que esse personagem possa se comunicar com você. Caso não tenha achado tudo isso muita maluquice, não se preocupe, ainda piora. Cartas são para serem enviadas e essa não é diferente. Coloque-a no correio, mande-a para você. Pronto. Você iniciou um diálogo e precisa continua-lo até que cheguem a um acordo. Boa sorte!

*É importante lembrar que esse personagem, por mais autônomo que pareça ser, é uma representação sua. Caso exista qualquer sensação de confusão entre realidade e ficção, aconselho buscar ajuda especializada.

FONTEObvious Mag
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