Talvez precisamos aquecer o coração.

Hoje o dia parece um pouco mais amigável. Poucas pessoas, de tantas que passam pelas calçadas, me olham. E quando olham, é de relance. O medo de um contato visual entre olhos parece assombrá-los.

O vento de outono toca meu rosto, avisando que a temperatura vai esfriar um pouco. Logo chegará o inverno, minha estação favorita. No inverno, por tudo estar frio, não me sinto tão sozinho. Penso comigo se existe alguém, que está gelado por dentro tanto quanto eu. Ando querendo aquecer meu coração hibernado.

Tem uma guria que talvez precise se aquecer também. Todo dia passo por ela, sempre no mesmo lugar, na mesma hora, ela está lá, encostada na parede. Uma das únicas pessoas que não tem medo de um contato olho no olho. E o melhor, esse contato dura um pouco mais que os demais.

Esse tempinho em que nossos olhos se abraçam, me faz pensar que ela também, talvez esteja como eu, precisando de alguém que aqueça seu coração. Talvez ela tenha sofrido recentemente. Talvez ela nunca tenha sido amada. Talvez ela esteja cansada de se entregar para pessoas vazias. Talvez ela só me olhe por olhar. Tantas possibilidades. Que difícil.

Começo a gostar daquele curto momento diário. Um dia, no mesmo lugar, me deparo com ela e seu namorado. Tentei esconder meu desânimo e acelerei o passo. Sem olhar para ela dessa vez. Talvez eu estivesse só vendo demais.

Nosso olhar é tão íntimo que tem vezes que só pelo fato de o trocarmos com outra pessoa, já sentimos que uma parcela bem pequena dela nos pertence. Talvez as pessoas se cansaram tanto de procurar alegrias em outros olhares que só os decepcionaram, que desistiram de trocarem olhares. Talvez deve ser isso.

Talvez pode ser tanta coisa. No fundo acredito que, numa troca dessas, vou encontrar o que quero. Não vou desistir. E se as outras pessoas também pensaram nisso e desistiram? Não, eu não vou desistir.

O sol está um pouco mais frio que ontem. Está mais frio do que nos dias em que meu olhar tinha um abraço. Querendo ou não, o abraço dos olhos dela esquentava, mesmo que pouco, o outono. Outono que a cada dia, fica mais inverno.

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