Você não vai mais manipular minhas emoções

Cada vez que ele briga comigo ele me põe mais no chão. Podemos sofrer com as violências, mas só cabe a nós virar esse jogo horrível. O poder está dentro de nós. E mesmo sabendo disso, a cada briga piorava. Se eu sou tão feia, tão porca, tão horrível… Por que ele ainda quer ficar comigo? Não dá pra engolir alguém que insiste em te colocar pra baixo. Que acaba com o pouco que te resta e tira a sua paz em toda oportunidade que surge. Aquele tipo de gente que não consegue resolver as coisas numa boa, que problematiza tudo e no fim das contas, não faz nada.

Se eu choro quando são violentos comigo, choro também quando a violência parte de mim. Ela vem sempre carregada de remorso, de dor, de arrependimento. E se, de alguma forma, a violência fica insustentável, antes de apontar dedos, de me fazer ser ouvida, de enfrentar, eu preferi sempre me afastar de tudo, deixar como estava, passar por cima do que eu sentia e deixar a raiva e a mágoa se esvair. E não, não estou dizendo que estou certa. Eu criei mecanismos pra justificar cada uma das vezes que me silenciei. E eu faço isso diariamente, desde que me entendo por gente. Não suporto conflito, prefiro ceder. Eu sou fraca. E vocês não sabem nada de mim. Não há nada pra ver aqui de bom.

O cara me deu um pé, me humilhou de tudo que é jeito, me jogou contra as pessoas que eu amo, jogou meus amigos contra mim, levou minha autoestima. E ele não para. O que ele quer? Que eu corte os pulsos? Isso vai fazê-lo feliz? Vai o fazer parar com isso? Mesmo quando nos pega de surpresa ficar sabendo que aquela pessoa está falando que somos de um jeito ou de outro, é de cortar o coração. Porque o que a gente mais quer é viver com dignidade, indo em frente, dando socos de volta na vida sem abaixar a cabeça para os problemas que nos assolam. E a gente não pode abaixar a cabeça mesmo não. É erguer o queixo, sorrir e dar a mão para quem precisa. Afinal, quem nunca precisou do outro? Pode ser que nossa ajuda seja necessária também. E é difícil lidar com pessoas que não entendem isso e ainda exploram as nossas fraquezas.

Eu não disse das vezes que desmarcou planos comigo em cima da hora, esqueceu-se dos compromissos, enrolou até passar do horário e me rotulou de louca quando eu me irritava com sua displicência. Nem precisei falar sobre às vezes em que ele me chamou de burra e disse que eu nunca conseguiria nada na vida. Não preciso dizer sobre quando ele berrou que ia me destruir, com a bênção da família – e todos agiram como se isso fosse normal. Hoje, eu posso dizer que ele me destruiu. Destruiu a minha vitalidade, a minha força e a minha jornada. Mas não sou eu que vou permitir que esse ciclo continue-se, eu vou quebrar esse círculo horrível no qual eu mesma me deixei permanecer. Não tive coragem de dizer do que ele falou sobre meu corpo, meu peso e minha forma nas rodas de conversa, muitas vezes comigo presente, porque, afinal, ele meio que estava certo, não é mesmo? O negócio é que conscientemente você sabe que não é possível só você ser o problema.

Poucas pessoas sabem a razão exata do fim do meu último relacionamento. Mas o que reza a lenda é que eu sou uma louca, neurótica. Uma mulher com uma insegurança doentia, um ciúme doentio. Uma pessoa doente. Uma pessoa doente. Uma pessoa doente. Adoeci, é verdade. Mas a insegurança, o ciúme, a neura, foram cuidadosamente plantadas e alimentadas em mim como forma de controle, de me manter passiva. Poucas pessoas sabem verdadeiramente o que eu passei. Dessas poucas pessoas, nenhuma sabe tudo. Eu não tive coragem de dizer. Porque sempre que pedi ajuda para pessoas que podiam fazer alguma diferença, me mandaram fazer artesanato, por que ele era um cara legal e eu era privilegiada. Eu não preciso ouvir isso, ninguém precisa. Fazer artesanato não vai colar os pedaços da minha autoestima de volta. Ter me relacionado com um cara tão legal não teria me causado danos tão intensos como os que tenho que lidar até hoje.

Sempre gritam vozes na minha cabeça que vivem dizendo “não vale a pena dizer nada, ninguém liga”. Depois de tanto tempo, que diferença faz? Sempre gritam umas vozes na minha cabeça dizendo que “ninguém vai acreditar no que eu digo”, “que eu vou ficar sozinha”. Porque, afinal, quem vai acreditar nisso? Isso tem cheiro de retaliação, de recalque. Nem sempre essas vozes vêm de dentro. Das poucas que sabem um pouco, não sei quantas verdadeiramente acreditam em mim, ou se acreditam em qualquer uma das coisas que eu disse. Então eu não disse, eu não digo. Mas mesmo depois de tanto tempo, me machuca, me dói.

Chega uma hora que cansa. Que o melhor é ligar o foda-se e se apegar ao seu jeito, a sua loucura, ao que insistem em chamar de defeito porque simplesmente não te conhecem de verdade. Uma hora a gente vê que quem não vale a pena, é quem nos coloca para baixo. Que era ele que era o problema, não eu. Parei de me importar com os outros comprando a ideia de que sou desequilibrada, sem noção ou má pessoa. Isso, porque não sou. E você também não é uma pessoa ruim. A gente só passa por muitas dificuldades – principalmente internas – e as pessoas não tem o mínimo de sensibilidade de nos deixar em paz lutando contra os nossos próprios demônios

 

“texto feito com a colaboração de uma leitora”

Escrito por Ju Umbelino, colunista do Sábias Palavras.

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FONTESábias Palavras
TEXTO DEJu Umbelino
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