Sobre ficar stalkeando: Você sofre à toa com dramas desnecessários

Viu um post de um amigo no Facebook que te desagradou? Escutou um comentário fora de contexto e tirou conclusões precipitadas? Fuçou o celular da mãe/amigo/namorado? Leu os emails do peguete quando ele esqueceu o computador aberto? Deu uma stalkeada absurda em todos os perfis da pessoa amada e encontrou “A mensagem” que foi enviada por uma garota suspeita em 2013? AI MEU DEUS!

As tantas mil formas de stalkear alguém e de querer – e até mesmo exigir – uma atenção exclusiva são diretamente proporcionais à frustração de não alcançar tal objetivo. Isso porque o desejo exagerado de querer controlar a vida do outro acaba gerando, quase sempre, uma dor de cabeça. Independentemente da relação que você tenha com a pessoa monitorada, seja um namoro, amizade de anos ou alguém muito chegado da família, a relação ou o grau de intimidade que vocês têm não justifica todo o controle feito.

Porque, sim, você vai encontrar aquilo que você não queria imaginar nem nos piores sonhos. Sim, há grandes chances de você se deparar com o passado do outro, passado esse que foi esquecido num histórico de conversa não apagado. Sim, você será confrontad@ com mensagens que contêm mais de um sentido e outras cujo conteúdo nem sempre expressarão floreios sobre você.

Desculpa te falar isso, mas essa pessoa já tinha uma vida antes de você e muitas vezes pode não ter o mesmo ponto de vista que o seu – até mesmo se for em relação às suas atitudes. Somos seres humanos. Ninguém tem a menor obrigação de dar um relatório completo sobre o que fala e com quem fala, dando total satisfação da própria vida para quem quer que seja. Somos livres. E tal liberdade não implica em quebra de confiança ou infidelidade. Assim também como fidelidade não quer dizer se deixar colocar uma coleira no pescoço e nunca mais fazer nada sem ter a outra pessoa do lado ou uma devida autorização, como se ela implicasse necessariamente numa total monopolização.

Como assim? A menina que não suporta os amigos do namorado e tenta monopolizar sua atenção, tentando além disso, exigir que o único ser do sexo feminino que ele tenha contato seja ela. A amiga de anos? Nem pensar. Bom dia para a atendente simpática? Só se ele não tiver amor à própria vida.

O quanto racional são tais exemplos de ciúmes? Não vejo sentido. Não consigo enxergar como é possível que existam pessoas que exijam atenção total sendo que o outro não pode ou não está. Somos pessoas livres e tal exigência só caminha para o lado oposto, de querer ficar cada vez menos junto, cada vez menos cobrad@, cada vez menos vigiad@.

Agora imagine a hipótese de você encontrar uma mensagem de alguém especial falando mal de você. Difícil, hein?

Porque sim, é realmente provável que esta mesma pessoa que está sendo stalkeada poderá pensar algo sobre você, mas não tem coragem de te contar. Acontece. Quem nunca gostou demais de uma pessoa, mas não tinha coragem de falar algo na cara dela pra não magoar? Nada que não pudesse ser comentado em caráter sigiloso para alguém de confiança com pequenas pitadas de reclamações ou alfinetadas, é claro. Acontece. Até tu, Brutus, podes ser alvo do veneno alheio.

Então para que fuçar? Para que procurar? Claro que muitas pessoas vão pensar que é melhor procurar mesmo e encontrar o que tiver que ser visto. Que a podridão seja lançada ao ar. Ou até mesmo que a vítima do Sherlock Homes é deveras não confiável e, se bobear, ela estará fazendo algo por debaixo dos panos. Ok, ok, tal hipótese até parece justificável. Entretanto, se a pessoa não tem “antecedentes criminais” e não apresentou nenhum motivo concreto pra desconfiança, por que não dar um voto de confiança?

Somente o processo de procurar por algo “ilícito” mostra uma falta de confiança própria, como se quem procura não fosse o suficiente para quem está sendo monitorado, seja em qual for a circunstância do relacionamento. Monitorar, exigir exclusividade total e desmedida, ou tentar manter alguém à base da coerção ou manipulação (seja pelo sexo, dando presentes ou fazendo promessas), não parecem ser métodos realmente eficazes para se manter alguém por perto. Pelo menos não com o stalkeado ficando ao seu lado por vontade própria.

Assunto confuso este. Só sei que ciúmes é um saco, é destrutivo. Se deixar, é um sentimento que pode ser facilmente justificado por laços de intimidade, como se depois de um título ele recebesse a autorização de fazer parte do cotidiano de forma natural.

Não, pelo amor de Deus não. Claro que desapego total é bem raro de acontecer. Acredito que são poucos os mortais capazes de tamanho desprendimento – admito não me enquadrar em tal categoria. Por outro lado, confiança e liberdade estão intimamente ligadas, e quem procura motivos como quem procura pelo em ovo para começar uma DR sem a menor necessidade não parece tomar uma decisão muito sábia.

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Escrito por Marcella Carvalho
Publicado em Lado M

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