Só mais uma folha do outono

As folhas possuem um ciclo natural: nascem, crescem e caem. Algumas possuem uma beleza própria, e, mesmo quando estão no chão chamam a atenção, outras simplesmente não. Mesmo provindas da mesma semente, circuladas pela mesma seiva e sendo alimentadas pelo mesmo processo, elas não se destacam. Não tem sutileza, beleza ou algo que provoque o entusiasmo, mesmo tendo seus diferenciais e características próprias tornam-se apenas mais uma plantinha em meio a tantas outras. Quando as folhinhas caem e secam, formando um amontoado, muitas vezes colorido, dão forma e cor ao nosso outono. Se a folha é bonita, ela não passa despercebida quando está caída no chão.

É exatamente assim que me encontro neste momento. Sinto como se eu fosse aquela folhinha seca, caída no chão, que ninguém nota, pisam em cima, e varrem para depois jogar fora. Todos os valores atribuídos a mim não são o suficiente para que eu me sobressaia.

Fico paradinha no meu cantinho, olhando o mundo tão grande ao meu redor e eu tão pequenininha. Fico ali paradinha, enquanto os outros se movimentam. Fico ali em silêncio, torcendo para não ser notada. Eu vou ficando, e ficando, e ficando…

A baixa autoestima me pegou de um jeito que nenhum homem conseguiu me pegar até hoje, e talvez eu até esteja me sentindo especial, porque, pela primeira vez, alguém tomou conta de mim por inteira. E, não é que eu goste dela, mas sabe aquele famoso ditado “é o que temos para hoje”? É assim a minha relação com a minha atual autoestima. É difícil, claro que é, me olhar no espelho e não ver nada interessante, olhar as minhas fotos e não me sentir bonita. Enxergar os outros de forma superior, olhar as fotos deles. Me deixa ainda mais perto do chão.

A culpa é minha. Meu maldito coração se iludiu e fez com que eu acreditasse nessa fantasia, e quando eu acordei, não era mais a mesma. Não era mais aquela mulher feliz, sorridente, que acreditava no amor, que gostava de estar rodeada pelas pessoas, conversadeira e divertida.
Eu sentia que tinha mudado a partir do momento em que meus amigos me chamavam para sair, mas minha única vontade era ficar deitada na minha cama. Era o lugar mais confortável do mundo, mais seguro e mais aconchegante. O mundo começou a parecer grande demais para mim e para os meus sonhos.

“Amiga, se você se sente uma folhinha do outono, pense que ela tem seus lados positivos: ela é bela, charmosa e tem um leve ar misterioso. ” Minhas amigas tentam me animar, me colocar para cima e ver o lado positivo disso tudo. Eu sei que elas me amam e só querem meu bem, e eu as amo, mas é mais complexo que isso. Sabe aquela vontade perene e abundante de querer melhorar, querer ser quem você era? É ela que eu tenho. É a vontade de amar de novo e ter a certeza que sou amada, a vontade de sorrir e de sentir-me bem comigo mesma.

Eu vejo a felicidade batendo pela minha porta e dizendo “opa, porta errada.” As oportunidades vêm e vão, o amor bate na porta, mas logo sai correndo, meus amigos estão seguindo por caminhos distintos e a única que continua parada, imóvel, no mesmo lugar, sou eu.

Eu sinto vontade de correr atrás de cada um e dizer “não, calma, não vai embora, a porta era a certa sim”, mas, talvez, nem eu mesma acredite nisso.
Uma folhinha é linda quando cai, se torna até quase que uma estrela, de tanto que as pessoas apreciadoras de momentos, natureza e coisas simples as admiram, mas é efêmero, logo é esquecida. Todos os dias eu acordo e penso “hoje é dia de deixar de ser uma folhinha e me tornar um jardim.”

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEDaniele Denez
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