Sinto sua falta

Doze graus Celsius aconchegam a quinta-feira. Quintas-feiras não costumam ser poéticas; seriam mais, se tivessem chuvas por horas seguidas. Seriam menos, se eu tivesse você; não porque eu não te amo o suficiente, mas porque, geralmente, a saudade gera mais inspiração do que o afago dos seus dedos nos meus cabelos. Seriam mais poéticas, as quintas, se eu soubesse o que te dizer.

Já faz algum tempo que não nos vemos – tempo o bastante para me curar. A saudade que eu sinto hoje é um vaso empoeirado atrás de uma doma de vidro; meu coração é museu. Costumam dizer que museus vivem de passados, mas eu não concordo. Museus vivem de saudades; o passado já não existe mais, e não faz falta. A ausência, ela sim, nunca vai embora.

Às vezes, me faltam as palavras – e esses são meus piores dias. Porque, quando elas faltam, não tenho nem ao menos como chegar até você; elas me iludem, as palavras. Elas me fazem acreditar que num futuro distante e improvável nós ficaremos juntos. Elas me fazem acreditar em você, e em todos os meus planos meia-boca, e em todos os nossos filhos brincando no jardim de casa, e em todos os países que vamos conhecer.

É assim que me sinto quando não conversamos: vazio. Como se tudo que eu tivesse feito até agora não me valesse de nada; como se você fosse apenas uma memória amarga e indesejável, ou uma história de bar qualquer.

Não existe um boteco sequer nessa cidade que não tenha ouvido a nossa história; não existe um amigo que não tenha me aconselhado a fugir. E eu, insosso que sou, só consigo responder que ainda não superei nossas páginas em branco. Não superei nosso beijo sem graça. Não superei nós dois.

Eu achei que você saberia que chegaria essa hora; a hora em que eu simplesmente tenho de ir para casa. Não sei como continuar a viver sem você, mas as coisas estão mais para sobreviver do que de fato ter vida. As coisas estão mais para seguir em frente do que de fato esperar por você.

Seu silêncio me corta muito mais do que facas no abdômen; seu silêncio me dá vontade de gritar e correr – adrenaline rush. Seu silêncio é a única parte sua que me resta.

Se você me pedisse, eu ficaria. Se você me pedisse, eu tentaria por nós dois – e você não teria que se esforçar muito. Mas enquanto me mantenho firme, com o café esfriando ao lado da quinta-feira e dos sonhos, você continua em silêncio.

E já diziam as avós – quem cala, consente.

Quem cala, não sente.

A fumaça sai da xícara e entra em minhas narinas.

Inspiro. A janela reflete o brilho da rua; o céu está completamente escuro. Não vejo a lua caminhar pela madrugada. Onde ela está? Dou mais um gole na xícara até me perguntar novamente – onde você está? Vejo seu brilho, sinto as marés se moverem, mas não enxergo o astro daqui. Sou apenas um planeta estúpido, que foi se apaixonar por um satélite sem campo gravitacional. Sou apenas um planeta estúpido, por acreditar que eu teria forças de te puxar daí. Sou apenas um planeta estúpido.

Viúvos não sobrevivem – e eu não sou uma exceção. Não existo mais; fui decomposto pelo amor em excesso, que mata mais rápido do que tiro na cabeça. Morrer de amor nunca tinha me parecido ser uma opção ruim – mas Romeu e Julieta tornam a morte apenas um rito de passagem; e minha morte tem se parecido muito mais com a solidão eterna. Ela se parece bastante comigo, a morte; por dentro nada mais funciona. Por fora, pareço apenas dormir.

Como sentença final, você me obriga a subir na prancha; pés descalços e garganta seca. A brisa salgada faz minha pele corar; limpo o óleo das bochechas. O cheiro de sal e dos peixes me lembra, agora, muito mais sangue do que o mar; o cheiro me lembra a saudade.

Um passo para frente. Os dedos encaixam-se na beira da prancha. Como seguir em frente se meu único guia era você?

Eu queria ser forte o suficiente para pular. Eu queria ser forte o suficiente para pular. Eu queria ser forte o suficiente para pular.

A verdade nunca nos liberta; eu mesmo deveria tentar. Eu deveria me libertar desse sentimento que bate junto com as ondas; raiva, tristeza, amor. Saudade.

Se algum dia alguém lhe perguntar o que significa saudade, entregue-lhe este texto.

Diga que nunca alguém gostou tanto de alguém como eu gostei de você.

Diga que eu, até hoje, não fui forte o suficiente para pular.

Doze graus Celsius aconchegam meu coração. Corações apaixonados não costumam ser poéticos. Seriam mais, se fossem correspondidos. Seriam menos, se não sentissem tanta falta.

Ah, e como falta.

FONTEAmor Ano Zero
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