Sinto falta dela, cara.

Se eu pudesse ao menos viajar no tempo, voltaria à noite em que nos conhecemos só pra ter o prazer de vê-la sorrindo pra mim sem medo, pra enxergá-la como sempre ela me enxergou e jamais teria feito tanto pra que ela passasse a não querer mais me ver. Se eu pudesse, cara, eu voltaria e tentaria corrigir tudo o que fiz de errado nesses últimos meses, e se eu soubesse que seria tão difícil perdê-la desse jeito, eu teria me esforçado pra ganhá-la todos os dias. Se eu pudesse, ao menos, ter o privilegio de dormir com ela outra vez, eu acordaria antes das seis só pra observar como ela me procurava ao acordar e finalmente enxergaria que ela sempre se preocupou comigo e eu nunca liguei tanto pra isso. Se eu soubesse que perdê-la seria tão difícil de suportar, eu não teria batido tantas portas, virado tanto as costas e ameaçado tantas vezes sair da vida dela, eu teria ficado, me despedido sempre com um beijo e dito claramente que amanhã voltaria.

Se eu soubesse que adiar tantos encontros, ignorar tantas conversas e rejeitar tantas ligações, um dia, faria ela deixar de se importar comigo, eu não teria feito. Nunca imaginei que em algum momento ela resolveria pôr um fim nisso e deixar de aparecer por aqui de uma vez. Se eu pudesse voltar ao tempo só pra vê-la de novo, pediria desculpa por todo desconforto que causei, viveria tudo o que vivemos de bom e ouviria – com atenção – ela dizer que me ama, eu jamais duvidaria disso. E em vez de desligar o celular e curtir a festa sozinho, eu poderia ter desistido de ir sem ela, eu poderia surpreendê-la, bater na porta da sua casa e fazê-la me aturar por mais um noite, surrando em seus ouvidos, ocupando o espaço direito da cama, disputando um edredom de solteiro e encostando o meu queixo no ombro dela. Eu sinto falta dela, cara. Tenho todas as músicas que ela ouvia gravadas em mim, todos os filmes que ela assistiu comigo, tenho tantos domingos que ela preferiu ficar ao meu lado que ir a praia com as amigas, tenho também todos os momentos que ela me fez se sentir único, bobo e completamente satisfeito por tê-la comigo. Eu não sei te dizer bem em qual instante comecei a perdê-la de mim, como também não sei te explicar como deixei isso acontecer, só sei que aconteceu e tudo que eu poderia fazer pra que ela se sentisse segura comigo e não fiz, agora não tem mais valor algum. Ela se esforçou tanto por mim e todo esforço que agora tento fazer por ela, é em vão, porque ela não está mais aqui e nem pretende mais voltar.

E eu tenho todas as manias e todos os seus gostos dela em mim. Eu sei, por exemplo, que ela só consegue ouvir música no último volume, que é apaixonada pela cultura oriental, que não gosta de chocolate com castanha de caju, que teve um Hamster com nome de astro do rock aos seis anos, que sempre foi briguenta e na escola, quase arrancou as bochechas de um garoto quando ele tentou roubar um beijo dela. Eu sei também que ela prefere arroz que macarrão, que tem alergia a poeira e que não gosta de dormir de conchinha por muito tempo porque não suporta o calor. Sei também que ela tem uma cicatriz no joelho quando tentou andar de patins pela primeira vez, que tem um sinal no meio das costas, que sonha em morar bem bem longe da cidade, de preferência numa dessas montanhas espalhadas pelo mundo, que pretende se casar no campo ou na praia, nada de igrejas! Que chora nos filmes e não tá nem aí se você acha isso patético, que usa  ”ok” quando não está mais afim de papo, que beija o guardanapo pra tirar o excesso de batom, que achava graça quando me beijava e lambuza toda a minha boca.

É triste saber que passei a enxergá-la só agora, com tamanha distância. E que eu passei a mostrar que de fato a queria, depois que ela decidiu não me querer mais. E que eu só me dei conta de que as mensagens de ”bom dia”  – que muitas vezes eu nem respondia -, a insistência e a implicância fariam falta, quando deixaram de acontecer. Eu preciso confessar que eu preferia não tê-la conhecido ainda, preferia que o nosso encontro acontecesse outra vez, outro dia, que a gente se esbarrasse por aí, no metrô, na escada rolante do shopping, na porta giratória do banco ou na fila do supermercado, sei lá. É que depois dessa ausência que tive de suportar, tenho certeza absoluta, eu não a perderia outra vez.  Agora, eu sei que quando a gente é babaca com alguém que só quer fazer bem pra gente, quando a gente perde alguém que nos dá o melhor sorriso mesmo sabendo que existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, quando a gente só enxerga o outro quando ele não está mais do nosso lado, a saudade deixa de ser amiga, ela dói.

FONTEIandê Albuquerque
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