Será que a gente combina?

Durante o tempo em que estagiei numa empresa, no ensino médio, conheci uma colega de trabalho que logo se tornou uma grande amiga. Ela é até hoje a maior fã de Katy Perry que já conheci, o que, da minha parte, rendia bastantes piadas sobre a capacidade vocal da cantora. Lembro-me como se fosse hoje quando, entre papeladas e laçaços de atilhos numa tarde quente do verão porto-alegrense, eu resolvi perguntar “Tu namoraria um fã de Katy Perry?” É claro que, a princípio, rimos sobre a possibilidade de se encontrar algum garoto hetero que fosse fã da cantora de Peacock, mas logo em seguida ela me respondeu com um“não, acho que seria praticamente uma competição interna para saber quem é mais fã, acabaria causando discussões, tipo, caso eu pudesse conhecer a Katy e ele não”.

Primeiramente aquilo me fez mudar completamente o meu conceito de fã-retardada e depois, já no ônibus lotado, me fez refletir sobre como nós vivemos uma busca incansável por pessoas com os mesmos gostos que nós.

Por exemplo, você não quer só um cara legal, bonito, que te dê ursos de pelúcia e cozinhe; você quer um cara legal, bonito, que também goste de Rock clássico, que também ame a cultura francesa, que também aguente horas em uma ópera, que também colecione rolhas dechampagne, que também goste da combinação de geleia de uva com manteiga, que também ame azeitonas e que ache o Lars von trier o melhor cineasta de todos os tempos. A princípio não há problema algum em querer alguém com os mesmos gostos que você, mas, como eu disse: a princípio.

Logo começarão as discussões sobre qual é o melhor álbum de rock clássico, discussões sobre por que um prefere Piaf e outro Gainsbourg, indecisões na hora de escolher uma ópera, disputa para ver quem fica com a rolha de uma Veuve Cliquot caríssima, disputa semiolímpica para comer o último pedaço de pizza com azeitona e desconforto ao saber que o filme do Lars preferido dele é O anticristo e não Melancolia. Querer alguém com 95% de compatibilidade na Last.fm ou em qualquer outro quesito é, além de narcisista, viver uma competição interna e subconsciente, você não percebe, mas está lá, enraizada nos seus egos. Quanto mais gostos em comum, maiores são as chances de desapontamento. É fácil desapontar o outro quando você descobre que não era tão expert assim no assunto que achou que dominava.

Talvez o que falte nos relacionamentos de hoje seja o interesse. Falta interesse em saber mais sobre o que o companheiro gosta. Vivemos em uma época em que aplicativos como oTinder mostram o nome, idade e quais as páginas de Facebook vocês curtem em comum. Tudo cria a falsa sensação de que se os dois preferem Marvel à DC, então terão uma casa com jardim, um bebê e um Golden retriever mutante.

O importante em um relacionamento não é a compatibilidade de gostos. O que você precisa não é alguém que também saiba as letras da Adriana Calcanhoto de cor ou que saiba recitar Drummond de trás para frente, mas alguém que tenha interesse em saber mais sobre o seu mundo, que constantemente te peça espaço para ouvir sua música preferida ou para saber mais sobre o livro que você está lendo. Alguém que te ofereça a mão para um passeio pelos seus estilos musicais, que te conte histórias malucas sobre astros do rock decadentes e divas do jazz viciadas em cocaína. É essa troca extremamente gostosa e sadia, um diálogo que mostra um papel ativo dentro do relacionamento, que faz com que os dois sejam diariamente introduzidos a coisas novas, fora das zonas de conforto de cada um.

Uma boa relação não é aquela onde os dois gostam de tudo igual, mas aquela onde diariamente há uma troca de interesses. Relacionamentos baseados em gostos em comum não resultarão em nada além de pessoas e situações previsíveis.

 






COMENTÁRIOS