Se seu corpo murchasse agora, como uma uva passa, o que mais você teria a oferecer?

Por: Lara Brenner
Publicado originalmente da Revista Bula.

Minha menina, de várias formas eu a matei sob as lentes curiosas de câmeras ávidas pela nudez. Espremi seus peitos com força até que você não pudesse respirar, obriguei-a a tirar fotos nua no espelho, em poses depravadas que me davam água na boca. Escolhi as roupas mais deprimentes para que você se expusesse ao máximo, mostrando-me sua carne oferecida, desejosa e carente.

Eu fui um verme, sei disso, mas não tenha dúvida, minha menina, eu só queria que você me amasse. Mordi seu lábio úmido para que me entendesse, baguncei e puxei seu cabelo para que você me olhasse, bati em sua cara linda para que finalmente me visse. Adoro suas maçãs ruborizadas pelo tapa. Parecem tão naturais!

Perdão, menina, não vá embora. Lembre-se do que já fiz de bom. Eu a toquei de todas as formas em busca de amor. Senti sua carne macia com dedos lânguidos e respeitosos, abracei-a com ternura para que você enxergasse além de minha tez desejosa, mas você tinha uma estranha sede de algo que eu desconhecia. Abracei sua carne trêmula com a palma da mão, num séquito tão bruto que, por um breve segundo de vida, ele lhe deu algum prazer.

Eu sei que já te fiz sangrar, lembro-me bem disso. Lembro-me dos pingos vermelhos e desesperados virando uma pequena poça pulsante e você me olhando a perguntar “Por quê? Por quê? Saia daqui! Não suporto sua cara de toxina botulínica falsa”. Menina, não seja tão má, aquele dia foi diferente, eu estava fora de mim. Essa marca funda que você carrega no pulso direito e na alma torta foi um erro e prometo que não o farei novamente. Mas já vi que essa alma doente não tem jeito.

Volte para mim, aqui tem mais. Vou maquiá-la com cuidado para que você arranque elogios, para que suspirem por seus cílios compridos e invejem suas maçãs das bochechas suculentas. Ninguém precisa saber quanto esse implante frutal nos custou. Foi tão caro! Aliás, jamais contei a alguém que essas cicatrizes sob seus seios perfeitos e bunda redonda são fruto de uma injeção siliconada. Não! Jamais farei isso, eu amo você. Venha para cá, me dê a mão. Vou deixar sua unha bonita para que você a crave em outros corações, buscando arrancar deles o amor que nunca fui capaz de oferecer. Vou repousar seus pés sobre saltos altos para que você salte rumo à vida com ar de graça e poesia. Ninguém precisa saber que esse ar é mais poluído do que o rio Tietê.

Levante-se, meu bem. Faça o que você faz de melhor que é não pensar. Enxugue essas lágrimas, aperte os peitos na blusa mais uma vez, vista um shortinho depravado para agradar todo mundo, menos você. Você não tem mais nada, não é mesmo, minha querida? Se todo seu corpo murchasse agora, como uma uva passa ranzinza, um maracujá impiedoso, o que mais você teria a oferecer?

Antes de sair, despeça-se de mim. Isso, dê um beijo aqui no seu espelho que tanto te apodrece. Isso, tire mais uma foto. Esse ângulo não, melhor o outro. Faça aquele beicinho molhado que a gente adora, levante a sobrancelha. Não, não, melhor a esquerda. Isso. Click perfeito. Corra para o mundo de verdade para ver se alguém a curte, mas não se deixe compartilhar assim tão fácil. Antes de sair, poste essa foto logo. Não se esqueça de legendá-la com algo sobre inveja e sucesso. São conselhos de amor, menina. Eu sou você e você sou eu, afinal. Tudo o que eu queria era que você me amasse.

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