Respeito é o mínimo

Eu juro por todos os deuses que às vezes nem acredito que meus cabelos brancos estão surgindo e eu sigo tendo que falar de coisas tão básicas, como o fato de que as mulheres são humanas (não mercadorias, não decoração, não objetos, não brinquedos). Sério.

Por exemplo, ontem eu paguei uma cerveja para um cara e isso não me fez acreditar que eu era proprietária do corpo dele. Nós bebemos e conversamos e todos se divertiram e se trataram como humanos. Foi fácil, sabe por que? Porque eu sei que gentileza não é escambo e que cada pessoa é dona do seu corpo.

brinde

Pode parecer apenas óbvio, mas a maioria de nós conhece caras que ainda não chegaram nessacompreensão superior. E a gente nem sempre nota o quanto esses comportamentos são essencialmente violentos porque estamos mais acostumadas a ver violência machista em situações extremas. Mas o cara que acha que amizade é um caminho pra fazer sexo, o cara que pressiona a namorada e o cara que pagou uma bebida e se acha no direito sobre teu corpo são apenas outro lado da mesma ideia errada. Errada e potencialmente perigosa.

Ontem uma leitora me mandou dois textos da britânica Lauren Crouch, que tem um blog onde conta sobre seus encontros. Comecei a ler achando que fosse algo engraçado, mas me surpreendi com um relato bastante grosseiro e assustador.

Ela conta que saiu para tomar um café com um homem que conheceu no Tinder e que o assunto rolou normal por cerca de meia hora. Então ele tentou convencer ela a ir jantar na casa dele, onde ele cozinharia. Ela recusou pois tinha acabado de conhecer o cara e não se sentiu confortável. Então eles se despediram e, no outro dia, ele mandou mensagens propondo um novo encontro, ela recusou polidamente, ele insistiu, novamente propondo cozinhar um jantar para ela. Ela novamente recusou polidamente, ele pediu de volta o dinheiro que gastou pagando o café dela.

trouxa

Em tradução freestyle: “Beleza, justo. Tu pode me reembolsar pelo teu café? Eu não gosto de desperdiçar dinheiro. Prefiro usar em um encontro com outra pessoa”.

Notem o uso da palavra desperdiçar. Para ele pagar um café foi um investimento porque ele não vê as mulheres como suas iguais, mas como algo que ele quer. Por isso, também, o ato não foi gentileza, mas um processo de compra, e daí a cobrança, já que ele pagou e não recebeu o que queria. Esse é o tipo de sujeito acredita que pagando um café (ou uma cerveja, um drink, um jantar, uma roupa, o que for) para alguém, imediatamente comprou o direito sobre essa pessoa e se não for assim ele precisa receber o dinheiro de volta. E por isso ele não consegue ser rejeitado sem se tornar agressivo, porque se acha melhor que as mulheres e porque se sente passado pra trás.

Como se a sexualidade/afetividade fosse uma transação bancária.

cara-legal2As mulheres nunca saem com “caras legais” como eu. Eu odeio essas vadias

O segundo post no blog é sobre os relatos de muitas mulheres que passaram por experiências semelhantes com o mesmo cara e entraram em contato com ela, depois da primeira postagem. Nenhuma das mulheres que entrou em contato com a autora do blog chegou a ir pra casa desse cara. E, pra ele, isso sequer serviu como dica de que as mulheres não ficaram afim porque ele é escroto. Ele acha que foi uma transação que deu errado e deve, inclusive, se ver como um “cara legal”.

“Caras legais” são aqueles que simulam gentileza sempre esperando algo em troca. E são esses caras que devemos reconhecer e evitar a todo custo, porque eles fazem de tudo para “conseguir o que querem”, esquecendo que as mulheres não são algo, mas alguém. E isso é cultura de estupro.

No final, o cara legal só se revela pela frustração. Ao se frustrar diante de não ter sido reconhecido como a pessoa maravilhosa que acredita ser, ele se torna quem realmente é. Mas, eis uma novidade, caras: o mundo não te deve nada, as mulheres não te devem nada.

Por isso é importante relembrar, sempre, que esse tipo de comportamento não é besteira, é violência, e que respeito é o mínimo (em qualquer situação).

FONTELugar de Mulher
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