Relato pessoal: Uma vida transformada pelo medo e pela depressão

Há quem diga que tudo tem o seu tempo determinado. Antoine de Saint-Exupéry escreveu: para todo fim, um recomeço; Fernando Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena; Fábio de Melo: é no conflito que a vida faz crescer. E para todas essas frases, um ensinamento em comum: persista, mesmo quando a preocupação extrema e o desassossego baterem à sua porta, pois isso lhe tornará forte. Como prova, eis a história de uma jovem diagnosticada com síndrome do pânico e depressão.

 

Peçam-me qualquer coisa, menos para que eu decore datas. Sou assumidamente de humanas e meu contato com os números nunca foi o melhor. De qualquer forma, graças a uma carta que recebi na época e que mantenho na minha caixa de lembranças (aquela que você provavelmente também tem e está guardada em sua memória ou dentro do armário), ouso-me arriscar que foi em setembro de 2013. Deparei-me, nessa época, de maneira surpreendente com uma intensa reviravolta. Já faz um tempo, mas às vezes passamos por determinados momentos na vida em que os aprendizados perduram para sempre.

Eu estava sozinha em casa, como de costume, me preparando para ir trabalhar após o almoço. Inesperadamente, comecei a ser dominada por uma intensa sensação de pavor que aumentava minuto após minuto. Em menos de uma hora, minha mente estava cheia de temor, minha pulsação estava acelerada e eu sentia uma vontade enorme de arrancar da cabeça e do coração todo aquele medo. Eu estava diante do desconhecido. E, bom, como é que agimos quando nos deparamos com algo inexplorado? Eu descobri, nesse dia, o quanto nós seres humanos, somos vulneráveis e capazes de tomar atitudes inconsequentes diante de sensações que não conhecemos.

Não demorou muito e meu corpo começou a responder ao meu estado mental: muito choro, contração muscular e a certeza de que algo ruim iria acontecer. Minha resposta a tudo isso foi rápida: peguei alguns calmantes, tomei e, em seguida liguei para o meu pai. Eu sabia que dali em diante a moleza me dominaria, mas eu precisava ter a certeza de que não estaria sozinha. Assim, dá-se o início na minha grande experiência de vida e no amadurecimento que adquiri com o passar desses últimos três anos.

A princípio me vi tomada por uma rotina extremamente chata de idas e vindas a médicos – alguns agradáveis outros nem tanto -, para descobrir o que havia de errado comigo. Lembro-me de cada um deles, principalmente de um que se quer olhou para a mim enquanto eu dizia: “estou enlouquecendo!” E eu estava, mas não sabia o motivo. Mas é assim com todo mundo, quando estamos no meio de um problema não enxergamos nada ao nosso redor, é como uma nuvem de fumaça que nos cobre e só depois de muito caminhar e com o tempo é que ela vai se tornando amena e conseguimos, finalmente, tomar um pouco de ar.

Enfim e por fim fui diagnosticada com Síndrome do Pânico, transtorno causado pela ansiedade em excesso gerando crises de desespero e medo. De alguma forma, mesmo que negativa, as coisas passaram a ter sentido pra mim porque eu não estava simplesmente doida, afinal, havia uma explicação na medicina para o que eu sentia. Daí em diante, tornou-se difícil – ok, praticamente impossível -, eu ter uma rotina normal já que o aperto tornou-se frequente: dentro do ônibus, trancada no banheiro, antes de dormir ou em encontros familiares. Eram perturbações seguidas de preocupação persistente, falta de controle emocional e muito desespero.

Apesar de sentir-me sozinha, vi minha mãe abrindo mão do seu trabalho para ficar comigo, vi meu pai adiando suas reuniões para ficar comigo, vi ambos me levando ao pronto-socorro porque eu chorava descontroladamente e não sabia como parar. Vi meu irmão deixando de sair para ficar comigo e senti minha irmã a quilômetros de distância preocupada comigo também. Mas eu consegui, acima de qualquer sofrimento, receber o amor do qual eu precisava. Era difícil alimentá-lo, confesso, mas eu sabia que ele existia, que sempre esteve lá.

Não foi um processo fácil e, deixar a faculdade foi para mim, com certeza, o mais difícil. Eu simplesmente não aceitava a ideia de adiar meus planos: carreira, trabalho, família, apartamento, carro. Era ali, então, que me deparava com uma certeza: não temos o controle de absolutamente nada, principalmente de nossa própria vida. Precisamos sim almejar por uma rotina na qual façamos o que gostemos e que nos permita sentir a felicidade, mas, para correr, precisamos primeiro aprender a caminhar. Eu achei que sabia. Aliás, achei que sabia de muitas outras coisas quando na verdade estava apenas no início do meu viver. Então quando estava prestes a entender o rumo que eu tomaria, veio o segundo diagnóstico: depressão.

A depressão é um tanto quanto comum em pessoas atingidas pela Síndrome do Pânico. É basicamente a consequência de algo muito ruim pelo qual você passou. Ou seja, se já estava ruim, agora havia piorado. Eu era frequentemente questionada: mas por quê? Brigou com alguém? Alguém da família morreu? Terminou com o namorado? Admito que eu não suportava essa atitude de pessoas querendo um motivo claro para justificar a reviravolta da minha vida. Não, eu não tinha respostas para tantas perguntas, eu nem sabia qual era o propósito de tudo isso, cheguei a pensar que era um castigo pelos erros que vez ou outra havia cometido.

Em seguida meus remédios foram estipulados e o tratamento definido: consulta a psiquiatra, a terapeuta, remédio antidepressivo e outro para aliviar delírios e alucinações. Mas foram necessárias muitas noites sem dormir, falta de apetite, medo, angústia e revolta até chegar em meu próprio limite: comportamento agressivo. Só então, resolvi incluir no dia-a-dia muita paciência, muita fé, muita perseverança, muita vontade de continuar vivendo e muita vontade de continuar aprendendo. Claro que eu não cheguei a esse diagnóstico rapidamente. Foi necessário bater muito a cabeça na parede. Mas, como podem perceber, eu sobrevivi.

Alguns meses depois, larguei a medicação e parei de ir às consultas. Eu tinha certeza de que estava curada e, pela segunda vez, a vida me mostrou quem é que mandava, e infelizmente não era eu. Novamente comecei da estaca zero. Com muita raiva de mim por não estar sendo a melhor: nem a melhor filha, a melhor amiga, a melhor aluna. Eu definitivamente não podia abraçar o mundo com as minhas mãos e esperar que todos fossem gratos por isso. A única pessoa que notaria os meus esforços seria eu mesma. Mas era complicado, sabe? Ouvir comentários de que tudo não passava de uma frescura, de que era tudo coisa da minha cabeça e que daqui a pouco tudo voltaria ao normal. Minha confissão: nunca mais fui a mesma.

Esbarrei em inúmeras pessoas que jamais entenderam o meu sofrimento, porém, presencie outras rezando pela minha cura. Ficou decidido, então, que apenas as que me acrescentariam algo é que permaneceriam. Em seguida, vieram inúmeras tentativas de recomeço com trabalhos, entrevistas de emprego e estudos. Quando eu achava que seria a minha hora, pimba, eu era surpreendida e toda a minha luta escapava pelo vão dos meus dedos. Cheguei a me ver dependente de rivotril sublingual, ou seja, diante de qualquer sintoma de estresse e angustia, eu colocava o comprimido abaixo da língua e esperava o sono chegar.

Foi então diante de tanta bagunça que, aos poucos, decidi segurar a corda para tentar sair do fundo do poço. Comecei me analisando e percebendo em quais momentos a incoerência mental chegava e por que ocorriam. Deletei da minha rotina filmes de violências e noticiários trágicos. Passei a ler revistas e sites com boas histórias que me davam a sensação de que ainda havia esperança, para mim e para o mundo. Procurei assistir um pouco de comédia e desenho. Cheguei a fazer caminhada porque aprendi que o meu coração agia da mesma forma quando eu tinha crise (conforme eu apertava o passo e corria, minha pulsação acelerava, então quando o pânico chegasse, eu estaria preparada para atentar-me à respiração), e tudo o que pudesse me causar medo foi, gradativamente, deixado de lado.

Para a depressão ainda são necessárias algumas façanhas como escrever, ouvir uma boa música, chorar (mas lembrando-se sempre que o mundo não vai acabar amanhã), não me cobrar demais, colocar amor em tudo o que faço e, acima de tudo, fazer o que amo. Como consequência, fui recompensada com um remédio a menos na minha rotina. Apenas o antidepressivo continua, em uma dosagem alta, mas confesso que não há pressa para ele, pois precisei aceitá-lo como um aliado. É meu companheiro e não tem data marcada para ir embora. Também me firmei nas idas à terapeuta, hoje feitas a cada quinze dias, pois aprendi que apenas a medicação não seria o suficiente.

Então no final de 2015 eu entendi a mensagem. Era como códigos que precisavam ser decifrados. Minhas complicações mentais não passariam. Sempre que eu me deparasse com algo inesperado ou que exigisse um pouco mais de mim, eu poderia vacilar. O que eu faria então? Ao invés de eliminar os meus defeitos, eu deveria aprender a conviver com eles.

Por mais difícil que seja, nós precisamos aceitar como uma lição tudo o que passamos na vida. Não podemos culpar Deus, Jah, nossos pais ou tios pelas nossas falhas. Não podemos nem, sequer, culpar nós mesmos. Essa foi, com certeza, a maneira como me conheci melhor e, graças a isso, hoje sou uma pessoa melhor também. Ainda não sei me definir, talvez nunca consiga, mas, por hora, me satisfaz a ideia de que posso me reinventar constantemente e que há sempre pelo que agradecer, do começo ao fim do dia.

Se você passou por algo parecido, lembre-se de que esse é o propósito da dor: ela precisa ser sentida e a ferida não vai cicatrizar se você não cuidar. Provavelmente permaneçam algumas marcas e, quando olhar pra elas, atente-se em tudo o que passou enquanto esteve aberta. O sofrimento não é infinito e a alegria pode chegar pela manhã, então não procure por motivos para não deixá-la entrar, na vida e no coração.

De mim para vocês, com amor.

FONTEObvious Mag
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