Relacionamentos são como sapatos

É engraçado como algumas lições bobas que aprendemos no decorrer da vida ganham um sentido totalmente diferente e significativo quando paramos para pensar.

Comigo isso aconteceu com os sapatos.

Sempre amei sapatos sabe, desde pequenininha. Costumava ser uma daquelas peruinhas que mal sabiam andar e queriam colocar um salto alto.

Lembro que ficava indignada toda vez que ia em alguma loja e minha mãe me comprava aqueles tênis de luzinhas ao invés de plataformas, nunca entendia o porquê. Só hoje percebo a razão: eu não estava preparada ainda.

Quando eu tinha uns 5 anos era apaixonada por um desses tênis. Era todo colorido, piscava e tinha cadarços super legais. Foi bem na época em que aprendi a amarrá-los, dá para imaginar a alegria da criança aqui né?
Mas o tempo foi passando, meu pé foi crescendo e o tênis foi ficando pequeno demais para mim. Machucava, incomodava e eu ainda vivia com ele, afinal eu amava aquele tênis.
Foi ai que minha mãe explicou que eu estava crescendo e que o tênis não, que teria que trocá-lo ou poderia me machucar e deformar meus pés se insistisse em ficar com eles. Mas espera ai, como assim mãe? Eu amo esse tênis, não preciso de outro! Relutei, fiz birra, chorei e me machuquei. Me machuquei de verdade até aceitar ir à loja para comprar um novo. E adivinhem: chegando lá encontrei outro bem melhor.

Depois disso veio minha adolescência: uma menina de 14 anos com cabelão preto, 1.75m de altura e que por sorte não cresceu um centímetro desde então.
Era a época das descobertas, do primeiro beijo, do primeiro amor, das primeiras festas e da frustração de ver todas as minhas amigas usando salto e eu não por achar que ficava parecendo um boneco de Olinda.
Toda festinha era a mesma coisa. Eu lá, toda bonitinha, toda arrumadinha e com aquelas sapatilhas horríveis nos pés. Até que um dia me veio à cabeça: eu vou mesmo continuar me privando de coisas que gosto por que ELAS acham estranho? Até parece!

“Moça, me vê aquele salto da vitrine ali!”

Cresci e realmente apareci! O boneco de Olinda de salto aqui na verdade foi vista comoum mulherão e logo logo aquele tabu deixou de existir. Quem diria né?

Aos 18 anos comecei a trabalhar, e adivinha onde gastava a maior parte do meu salário? Exato, sapatos! Todas as cores, todos os tamanhos, todos os formatos. Gostava, comprava, usava, jogava embaixo da cama e recomeçava o ciclo. Demorei um pouco para perceber a situação, mas comecei a acumular o que não era necessário. Comecei a gastar dinheiro, tempo e espaço com algo que não precisava e que ficaria bem melhor em outras pessoas pelo puro e simples prazer de ter.

Me policiei e parei. Mas não desci do salto não. Todo dia, o dia todo. Até desaprendi a andar com chinelos e afins.

Só que o tempo foi passando e nenhum ser humano é feito de aço né? Dores nos pés, nos joelhos e bolhas. Ahhh as bolhas nos meus pés que devem ter movimentado muita grana no mercado de band-aid! Sofri novamente, de verdade e por pura vaidade.

Até que um dia, por livre e espontânea vontade, parei.

Aprendi respeitar meu corpo e minhas vontades, a não me acostumar com o que incomodava, a ter os sapatos certos para as ocasiões certas, a priorizar qualidade ao invés de quantidade e a aceitar que algumas coisas boas precisam ser deixadas para dar espaço a coisas melhores que virão.

Hoje, aos 22 anos, seja com sapatos ou com pessoas, prefiro mesmo é ter meus pés no chão.

TEXTO DESimone Oliveira
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