Redes sociais: O estranho universo que nos aproxima e afasta dos outros e de nós

Redes sociais: O estranho universo que nos aproxima e afasta dos outros e de nós
Por: Lara Brenner
Publicado originalmente da Revista Bula.

 

Por que divido minha intimidade com o resto do mundo a todo instante? Por que não consigo ficar em minha companhia por alguns minutos, sem que qualquer tecnologia se coloque entre mim e mim? Por que vivo a sonhar com a próxima viagem, quando sequer paguei pela anterior? Por que me privo do que gosto de comer e fazer em busca do corpo que alguém um dia definiu como ideal? Ora, a resposta não é óbvia?

Não é isso que todo mundo faz?

Às vezes, é preciso repensar o óbvio para se alcançar a verdade individual. “Óbvio”, essa palavra simples que carrega em si o perigo de afastar o questionamento e a inquietação e que, em sua nudez aparentemente despretensiosa, guarda o risco da dormência e da conformação. Afinal, se é tudo tão óbvio, por que pensar?

Bem, talvez nem todas as respostas sejam assim evidentes.

Quanto mais possibilidades o mundo oferece, mais determinista parece tornar-se o homem, vitimado pela infinidade de caminhos que ele próprio construiu. Esconder-se atrás de expressões da pós-modernidade, como “correria” e “networking”, tem levado a um movimento de incertezas absolutas que faz as ações humanas não saírem da superfície: nunca se viajou tanto, nunca se esteve presente em tantas redes sociais, nunca se compartilhou tanto a vida íntima com os iguais… Em contrapartida, nunca se esteve tão ausente das pessoas ao redor e do instante em que se vive. Em que se vive de verdade, diga-se de passagem, e não virtualmente. “Mundo líquido”, diria Bauman, “nada é feito para durar”.

As relações humanas, cada vez mais abundantes e menos sólidas, caminham em direção ao abismo. Tenho tantos amigos quanto minhas redes sociais apontam, mas sequer me recordo da última vez em que lhes perguntei, olho no olho, algo singelo como: “E a vida? Anda bem?”, para de fato ouvir com interesse sua resposta.

Não há como negar que a casca tem sido o lugar mais frequentado do fruto, num ato solene de esquecimento do básico: o que frutifica as relações são as sementes. É preciso dispor de terra fértil e ir fundo até se conectar a elas.

Rubem Alves certa vez escreveu sobre uma mulher que subitamente ganhou olhos de poeta. Passou a ver as cebolas como rosáceas de uma catedral gótica. De repente, todos os legumes lhe eram presentes aos olhos, tudo causava espanto. “Acho que estou ficando louca”, disse ela ao escritor. Analisando-a atentamente, concluiu ele sobre a saga que sua paciente acabara de vivenciar: “A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer”.

Talvez o mundo líquido esteja roubando-nos os olhos como órgãos de prazer, retirando-os da caixa de brinquedos para conformá-los à de ferramentas. Pelo jeito, tantas fotografias óbvias, vídeos previsíveis, felicidade forçada, corpos biônicos e risadas virtuais estão nos tornando menos gente, menos olhos. Talvez seja hora de começar a repensar o óbvio, como fez a mulher de Rubem Alves com sua cebola magnífica. E aí, somente aí, é provável que se possa começar a enxergar o mundo não mais com olhos falsos de quem vive sem viver, mas com aqueles sensíveis e honestos de um verdadeiro poeta.

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