sábado, julho 22, 2017

Como o simples fato de você matar mosquitos sem buscar o inseticida

 

Poderia ter me encantado por você

Por uma série de razões

Olhos expressivos

Olhares exclusivos

Ou até mesmo esse seu ar inquieto,

sempre parcialmente apreensivo

 

Poderia ter gostado

Do seu corte de cabelo

Desse seu jeito meio fogo meio gelo

Ou de uma tatuagem hipotética

Que imaginei no alto do seu tornozelo

 

Poderia admirar

Seu currículo extenso

Seu cargo, importante e hipertenso

Ou meus planos de tomarmos chá de canela

Enquanto queimamos um bom incenso

 

Poderia ter me apaixonado

Por você representar o que representa

Por tudo aquilo que você aguenta

Ou porque você era uma boa perspectiva

De função para minhas balinhas de menta

 

Poderia adorar

Suas camisas azuis todas iguais

Sua pretensão de viver simplesmente em paz

Ou quaisquer outras coisas, tão boas

Tão suas e tão exclusivamente banais

 

Poderia ter te escolhido

Por projetar em você toda uma vida

Por gostarmos das mesmas comidas

Ou pelo simples fato de você matar mosquitos

Sem precisar buscar o inseticida

 

Mas o fato é que eu nunca escolhi você

Porque gostar de você nunca foi opção

Foi bala perdida, gás de pimenta, arrastão

Ainda que eu não quisesse, já estava entregue

Outono, inverno, primavera, verão

 

E porque você poderia ter outros olhos

Outro currículo, outro cabelo e camisas de outras cores

Que eu quereria o nosso filme com esses mesmos atores

Que eu te amaria exatamente do mesmo jeito

Nesse mundo tão cheio de outros amores.

 

Escrito por Ruth Manus.

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