Querido ex:

Não sei se sabe, mas depois que você se foi eu me torturei um pouco com tudo o que vivemos. Questionei. Duvidei de mim mesma. Me culpei. Lembrei do nosso primeiro beijo que se encaixou perfeitamente. As nossas expectativas que se encontraram, os nossos destinos que se cruzaram. Eu não conseguia acreditar que tudo o que vivemos juntos acabaria dessa forma. Você sumiu. Partiu sem se importar. Eu precisei de você, cê não apareceu. Eu te chamei, você mentiu. Implorei que você viesse, cê não veio. Eu presa, você livre. Tive que me virar sozinha e você por aí. Rezei pra que chegasse o momento de te esquecer, e só lembrava. Jurei não mais me importar, e só me importava. Deixei de te seguir, mas acompanhei seus passos pelas redes sociais.
Você me fez feliz. Me fez bem pra caramba. Me esforcei pra ser quem você esperava que eu fosse. Fiz inúmeras coisas pra te impressionar e tive as reações mais ridículas pra te ter por perto e não te perder. Eu só não conseguia entender como cê teve a coragem de ser tão frio comigo. Me contou sobre você, permitiu que eu entrasse na sua vida, me apresentou aos seus pais, me fez conversar com seu melhor amigo sobre o amor e como você me fazia senti-lo tão bem. Me convidou pra dormir na sua casa, me levou pra provar as suas tardes, permitiu que eu entrasse em suas manhãs e aproveitasse suas noites. Me levou pra uma sexta-feira que nunca mais esqueci. Passei por todos os dias da semana com você, e incontáveis horas ao teu lado. Marquei seu dentista porque cê não tinha tempo, te acordei porque você dormiu e não ouviu o despertador tocar. Te atrasei pro trabalho, cê me atrasou pra aula da segunda-feira com aqueles pedidos pra ficar mais um pouquinho. Te trouxe pra minha vida, fiz morada em tua vida, acampei em teu peito, viajei pra um lugar que não sei bem explicar, só sei que foi duro aceitar a viagem de volta.
Saudade? Eu tinha às vezes. Saudade de quando você cozinhava pra mim um prato louco que cê aprendeu a fazer no Youtube. Saudade de quando cê preparou sua vida pra mim, quando você permitiu que eu entrasse e me fez se sentir a vontade. Saudade eu tive de quando você me perguntava – com um tom de ciúmes – quem era aquele meu amigo gato da foto que tiramos na sala de aula, e não acreditava quando eu dizia que era gay. Saudade eu tinha do teu beijo na escada rolante do shopping, na escadaria do teu prédio, na poltrona do cinema de um filme que a gente nem se importava em assistir, na praia, em viagem, nas festas, na rua, no elevador do prédio do teu amigo mala, no sofá, na cozinha, no banheiro e em todos os outros lugares que passamos juntos um dia e hoje não passaremos mais. Saudade eu tive de te abraçar por trás, de vendar os teus olhos e te fazer me descobrir, de olhar em teus olhos e me descobrir em você, de olhar nos teus olhos e sentir o teu beijo sem precisar te tocar. Saudade eu tive de quando você me esperava, de quando respeitava o meu atraso, de quando aceitava a minha vida como ela sempre foi, meio bagunçada e confusa. Saudade eu tinha de quando você bagunçava minha vida toda, mas voltava pra arrumar.
Vi que você se envolveu com alguém de olhos claros e eu me culpei por meus olhos castanhos escuros. Você conheceu uma pessoa alta e eu me culpei pelos meus 1,74m. Você namorou uma pessoa forte e eu me culpei por não ter tanto porte assim e ser fraca ao ponto de chorar ao te ver bem sem mim. Começou a namorar uma quarta pessoa, ou talvez, uma quinta. Escreveu um trecho de uma música – que deveria ser nossa e não foi – como legenda nas fotos. Terminou o namoro. Tua vida era sempre a mesma. O mesmo ciclo. O mesmo final pra todas que se envolvessem com você. Acordei depois das 13. Assinei Netflix. Passei um domingo inteiro assistindo filmes. Neguei convites. Dispensei tanta gente legal que queria ficar comigo. Perdi a disposição de conhecer outras pessoas porque todo mundo parecia igual e a essa altura do campeonato, era melhor eu me proteger. Achei que se ausentando do amor e negando as oportunidades que ele me dava era uma boa opção pra não me machucar de novo. Foi uma péssima opção.
Te reencontrei numa festa e tudo que eu queria era te dizer que estava tudo bem comigo, te pedir pra voltar como se nada tivesse acontecido, aceitar teu erro e tentar outra vez. Mas cê abraçou outro alguém e acenou um olhar de adeus. No outro dia você me ligou, perguntou se o CD do Strokes estava comigo. Cê queria ouvir o que a minha voz iria dizer sobre aquele dia. Eu disse não.  Passei a ter raiva de você, a não te suportar mais. Tive pena de você e parei de sentir pena de mim. Resolvi sair. Me libertar de vez de você e nem sei te dizer o que fiz pra preencher o vazio que você deixou. O inútil deu lugar ao útil.
Só quero te dizer que não precisa me ligar outra vez, nem tentar se explicar. Eu já encontrei todas as explicações pro que você fez, já entendi que a culpa não foi minha e que se ausentar pro amor por um mero principiante é um erro. Te disseram que estou bem. Você me viu com outro alguém. Cê ligou pedindo pra me ver, disse que queria conversar, pediu permissão pra se explicar, me mandou mensagem pedindo pra tentar outra vez, disse que se arrepende de tudo que fez e que anda sentindo minha falta. Mas é que agora, agora, eu me sinto amada. De verdade. Me sinto feliz. Me disseram que um dia eu iria rir de tudo isso. E não é que eu tô rindo?





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