Querido cara

Quando você se importou muito pouco, doeu. Doeu porque eu sou do tipo de pessoa que se importa demais, que cuida demais e que se entrega demais. Na sua ausência de valor e de carinho, eu encontrei muitos problemas, mas nenhum deles em você. Ao contrário, carreguei todos eles para mim porque acreditava, estupidamente, que a culpa era minha.

Talvez eu não fosse boa, linda, divertida, compreensiva ou interessante o suficiente. Talvez eu tivesse mais defeitos que qualidades, mais erros que acertos. Talvez eu não fosse capaz de fazer alguém feliz. Sim, eu me senti pouca coisa. Sentia-me doentiamente dependente de cada uma das suas migalhas que não era amor. Nunca foi. Era, apenas, ausência de afeto.

A gente se acostuma a não ser nada, a ser tratada como nada. A gente abre o coração para o vazio achando que ele é plenitude. A gente se acostuma a abaixar a cabeça e aceitar a culpa pela falta de interesse do outro. Quando eles partem, você se olha no espelho e pensa: é isso o que você merece porque você não vale a pena. Então, você dilacera o seu coração e cada uma das suas belezas porque é incapaz de perceber o quão idiota está sendo. É incapaz de entender que você, na verdade, vale a pena sim.

Por isso, querido CARA, se você se importou tão pouco é porque me olhava, mas não me enxergava. É porque você tem problemas e não eu. É porque você não foi capaz de entender e nem apreciar cada uma das minhas partes. Você é tão miserável que tudo o que foi capaz de fazer é ter se importado muito pouco.

Eu descobri, depois de tanto sofrimento, que não tenho que me colocar para baixo ou detestar quem eu sou. Eu não tenho que me sentir incompleta. Não tenho que me olhar e sentir vergonha do que vejo. Eu sou grande e forte e me cansei de me sentir menos do que eu realmente sou. Não é justo ter que mudar para que você se interesse por mim. Eu não preciso engolir cada uma das suas migalhas para impedir a sua partida.

Na verdade, se você se importa tão pouco, eu sinto muito é por você e não por mim. Por isso, pegue todas as suas coisas e dê o fora da minha vida. Eu não preciso e nunca precisei de você, acho que você já sabia disso. E, a propósito, obrigada por se importar tão pouco, graças a você eu pude descobrir a mim mesma.

FONTEObvious Mag
TEXTO DEAnne Brito
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