Quem tem medo de “eu te amo”?

São só sete letras.

Há quem diga que falta amor no mundo. Há quem diga que “eu te amo” virou “bom dia”. Não sei. Há quem diga todo tipo de coisa.

Eu sou do time do “eu te amo” sincero, mas nunca econômico. Do time que fala quando dá vontade, quando bate na aorta, como diria Drummond. Talvez por isso nunca tenha entendido bem essa história de medo de “eu te amo”.

Medo de amar, sim, desse eu compartilho. Djavan já bem disse uma vez “não existe amor sem medo, boa noite”. Amar dá medo. Medo de se dar demais, de não ser um amor reflexo, de perder o rumo, de perder as rédeas.

Mas depois que a gente ama… Já tá feito. E o medo de extravasar o amor é que eu custo a entender. O medo de dar o amor de bandeja, de colocar em palavras o que já está mais do que evidente no brilho dos olhos e no suor das mãos.

Acredito que o problema tenha sido essa história que alguém inventou de que “eu te amo” precisa ter como resposta única e obrigatória, “eu também”. Aí complica mesmo. Não faz sentido a gente dizer uma coisa que sente, impondo que o outro sinta o mesmo ou que, ao menos, tenha vontade de declarar amor exatamente na mesma hora. Às vezes você vai estar pensando em amor e o outro em calabresa acebolada, é assim mesmo.

Por isso, a deliciosa resposta a um “eu te amo” pode ser só um sorriso. Um beijo demorado. Podem ser olhos marejados. Pode até ser um “que bom” suspirado e sentido de quem realmente está sentindo o quão prazeroso é ouvir tais palavras. Um “eu também” pode ser uma delícia sincera. Ou pode ser uma simples forma de acabar com o assunto sem maiores polêmicas.

Acho que ficamos mais serenos quando entendemos que dizer “eu te amo” é quase como uma vontade de chorar ou de fazer xixi. Os limites do corpo- ou da alma- não mais bastam para o que lá dentro reside. Os olhos, a bexiga e o peito não têm mais a capacidade de suportar tamanho contingente. Ele precisa sair, ganhar o mundo, seguir seu rumo. E então, sentimos aquele maravilhoso alívio.

“Eu te amo” pode ser um presente para quem ouve, mas é uma necessidade vital para quem diz. E talvez a gente precise parar de depender do presente de volta e começar a sentir que dizer “eu te amo” já é bom por si só. Desse jeito a vida fica mais fácil. E o medo começa a ir embora.

Aos 18 anos, na véspera da morte da minha melhor amiga, saí do seu quarto dizendo “te amo, preta, durma bem”. Foi a última vez em que a vi. E o desfecho só poderia ser melhor se ela não tivesse partido. Mas, se era hora de partir, que partisse levando meu amor. E assim foi.

Essa consciência de que os caminhos são muito volúveis e de que a linha da vida é muito tênue talvez seja um dos maiores incentivos para eliminarmos o péssimo hábito de guardar sentimentos só para nós ou de achar que aqueles que amamos sempre “já sabem”.

E tudo isso só reforça a certeza de que o medo que devemos ter de “eu te amo” não tem a ver com orgulho, auto-preservação ou jogos. Aliás, acho que nada disso tem a ver com amor. O medo que devemos ter de “eu te amo” é apenas um: o medo de não dizer e de um dia ser tarde demais.

Fonte: Ruth Manus

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