Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos?

“Toda a minha vida eu acumulei lembranças. Elas se tornaram meus bens mais preciosos. A noite que conheci meu marido, a primeira vez que segurei meu livro em minhas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar pelo mundo. Tudo que acumulei na vida, tudo que trabalhei tanto para conquistar, agora tudo isso está sendo levado embora. Como podem imaginar, ou como vocês sabem, isso é o inferno. Mas fica pior.”

 

Em um primeiro momento, ao ler o texto acima, você consegue apenas diagnosticar o desespero nas entrelinhas, um falso convencimento, e, claramente, a certeza que os próximos fatos da jornada pessoal da autora seja o declínio cognitivo.

Alice Howland, uma mulher de cinquenta anos, classe média alta, bem sucedida e de família estruturada tornou-se independente muito cedo. Perdeu a mãe e a irmã em um acidente de carro aos 18 anos, pai alcoólatra, distante, se viu na obrigação de dedicar-se a ambição da carreira acadêmica e da construção saudável de um alicerce familiar.

A história de Alice poderia ser mais uma a passar despercebida no meio de tantas outras que a gente conhece no dia a dia. Porém, Alice é um personagem. Personagem central do filme Para sempre Alice interpretado brilhantemente pela atriz Julianne Moore, que inclusive levou o Oscar pela atuação.

Começar o texto contando a história de Alice como se fosse a de alguém próximo da gente, como um desabafo ou até mesmo com uma narrativa da vida de um dos nossos vizinhos, serve para demonstrar a possibilidade de o discurso possa se encaixar em qualquer realidade próxima a nós.

O filme transmite muito sutilmente uma mensagem real sobre perder-se, mesmo que subjetivamente e em decorrência de uma doença. É a relação entre o devastador entendimento de que aquilo que melhor nos define é o que nos será bruscamente tirado, é a sensação de impotência diante das próximas decisões do corpo, decisões essas que não passam pelo seu estado de escolha consciente, obviamente. Como diria Eduardo Giannetti no livro A Ilusão da alma: “O EU, no fundo, é uma peça de ficção.” Ou seja, diante de alguns fatos da vida a nossa única escolha é a aceitação.

No longa adaptado do livro homônimo conseguimos acompanhar o desenvolver da doença até um determinado momento, deixando poucas possibilidades escondidas, claramente, para não comprometer o relato familiar e emocionante traçado durante todo o filme. Porém, a questão a ser debatida aqui é quando a vida não te surpreende com uma doença desse nível mas mesmo assim a sua escolha é a de perder-se. Questiono: Esse perder-se é passivo de existir no nosso íntimo em gozo das nossas capacidades cognitivas? É possível o desencontro do eu consciente com o eu inconsciente?

Concluo que mesmo ciente de que não somos capazes de controlar o EU inconsciente, somos ao mesmo tempo capazes de responder sobre as nossas escolhas e, obviamente, sobre as consequências. É como se conscientemente, em alguns momentos da vida sua escolha fora ignorar quem você é afim de surpreender, atingir, vingar (etc…) uma terceira pessoa da qual, na maioria das vezes, nem atenta para o que você procura passar. Somos responsáveis por quem escolhemos ser e é inadmissível que em algum momento da vida a gente escolha ser algo que nos machuque, é inaceitável que a gente escolha olhar para fora ao invés de olhar para toda a beleza que existe dentro da nossa complexidade. Reaproxime-se de você mesmo, descubra-se!

Crie todas as memórias que ficarão eternizadas na sua alma e ninguém, nem mesmo a vida, poderá tirar isso de você.

 

FONTEObvious Mag
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