Quantas cicatrizes tem o seu rosto?

E você acha mesmo que precisa escondê-las?

 

Houve um tempo, quando eu era nova e acreditava na estapafúrdia ideia de que a vida estava nas minhas mãos, em que tinha certeza de que o rosto da felicidade era liso, luminoso e acetinado.

Eu acreditava que era essa a cara que eu queria ter, livre de qualquer cicatriz ou outra marca que denunciasse cortes, dores e mágoas.

Claro que a vida não me deixou permanecer nessa ilusão por muito tempo. Ou ainda, claro a vida rapidamente me resgatou dessa ignorância.

Uma hora a vida vem, não tem choro nem reza, os contos de fadas não duram para sempre. A diferença é que alguns entendem que a vida chega para nos libertar das torres altas nas quais estamos presos, e outros passam o resto da vida tentando reconstruir castelos do passado.

A primeira facada no rosto costuma vir com uma perda. De confiança, de rumo, de emprego, de vida. Costuma ser a mais dolorida. Outras podem ser mais fundas, mas as lâminas nunca mais nos encontram desprevinidos. A segunda vem com planos frustrados, amores perdidos,  chances que escoam entre os dedos. A terceira com um adeus, com um pelo amor de Deus, com um “os meus são meus, os seus são seus”.

E quando você se olha no espelho, não sabe mais quem é aquela pessoa. Você não conhece aquele rosto de feridas abertas. Não conhece. Mas não há tempo pra isso, é preciso lavar aquele sangue velho, é preciso fazer alguma coisa. E então você aprende a limpar aquelas dores de vida, a fazer curativo antes que apareça o pus.

Devagar, você percebe que os olhos ainda são os mesmos. Os traços não mudaram. Sim, aquela imagem é sua. É você depois de uma surra de vida. Quando você se reconhece, já é hora de levantar aqueles curativos tão pouco profissionais.

Nas primeiras vezes todos cometemos o mesmo erro. Esperamos puxar o esparadrapo, levantar a gaze e encontrar a pele ilesa, a pele de antes, o rosto do passado. E ele não está lá. Claro que não, aquele rosto não existe mais. A primeira cicatriz chegou. A vida começou pra valer.

A segunda se revela ao puxar o outro curativo. Elas são diferentes. Uma mais longa, mais fina. Outra curta e grossa. Ainda estão vermelhas e você tenta se convencer que elas, mais hora, menos hora, irão embora. Não irão. Um dia você vai entender.

É mesmo difícil se habituar à presença delas. Você tem saudades daquele rosto antigo, daquela vida antiga, antes de ter caído no mundo e nas suas navalhas. Aí surgem clichês como “eu era feliz e não sabia” e os conselhos rançosos que damos aos mais jovens “aproveitem essa fase, que depois só piora”. Bobagem.

O bom da vida está nas histórias vividas, nas marcas do tempo e, sim, nas cicatrizes. O bom nem sempre é o alegre, o bom nem sempre é o leve. O bom é o que nos marca, nos transforma, nos empurra pra frente.

E hoje não quero mais aquela cara livre de marcas. Tenho aqui, junto com uma cicatriz na pálpebra, com as marcas de acne e com pequenas ruguinhas que vão dando o ar da graça, tantas outras cicatrizes invisíveis aos olhos dos outros, mas que eu sei que estão aqui. Que são fruto do que tive a sorte de viver, que são transformações impostas goela abaixo, que são minha história.

Olhe-se no espelho, veja suas cicatrizes.  Não tente disfarçá-las. Aceite-as. Adore-as. Aprenda com elas. Orgulhe-se da estampa de vida- visível ou invisível- que sua cara ganhou.  Cicatrizes são lindas.

FONTEEstadão
TEXTO DERuth Manus
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