Quando o outro é o seu melhor programa

Ontem, após o Nespresso duplo de cada dia, eu ouvi, pela primeira vez, a música Mais Ninguém, gravada pela recém-formada Banda do Mar (grupo musical que conta com o Marcelo Camelo e com a Mallu Magalhães, entre outros músicos). Além de ter curtido o som, graças à mensagem gostosa que transborda da música, senti-me impelido a escrever sobre uma coisa que, em minha opinião, figura entre as principais responsáveis pela duração de longas relações amorosas: a capacidade de encontrar no parceiro todos os elementos necessários para se distrair por longos períodos de tempo, mesmo quando estiver em locais desprovidos de outras fontes de entretenimento.

Conheço casais que parecem achar graça apenas em programas que envolvem outros casais, música ao vivo, alta gastronomia e paisagens que dispensam filtros no Instagram. São pares formados por pessoas que não conseguem enxergar, no próprio parceiro, o suficiente para que, vez ou outra, os complementos não sejam necessários para tornar um programa a dois memorável. Gente que corre o risco de morrer de tédio quando precisa passar a noite toda, só com o parceiro, bebendo sobre a sarjeta. Gente infeliz, de acordo com a minha ótica.

Eu já tive um caso – felizmente breve – com uma moça que parecia precisar de mil coisas além de mim para achar que um programa era bom o suficiente para motivá-la a tirar um vestido limpo do armário. E, talvez, o culpado tenha sido eu e meu papo enfadonho, vai saber. Mas que eu sei, de fato, é que nossos diálogos eram mais ou menos assim:

– Mari (nome fictício), vamos fazer algo na sexta?

– O quê?

– Ficar juntos, que tal?

– Eu, você e quem mais?

– Eu e você! Não está bom?

– Podemos chamar o Rafa e a Fê, o que acha?

– Pode ser.

– E o que você quer fazer?

– Vamos tomar uma cerveja gelada?

– Onde?

– No amarelinho?

– Lá é muito sem graça. Só tem porções, bebidas e mesinhas!

– Ué, mas não é disso que um bar precisa para ser considerado um bar?

– Vou procurar algo na internet…

Vinte minutos depois


– Achei um lugar bem legal, é um bar no qual os clientes têm direito a fritar a própria porção de batatas e a inventar os drinks que desejam beber. E não para por aí: lá existe um telão que vive a transmitir desenhos antigos; e se o cliente, na hora de pedir a conta, acertar o nome de mais de três personagens de algum dos desenhos transmitidos na noite, ele concorre, automaticamente, a camisetas geniais. Legal, né?

– Vamos lá então!

– Fechou! O que acha de levarmos o War para nos distrair um pouco caso tenha fila de espera?

Muitos de vocês, neste exato momento, devem estar defendendo a moça do diálogo acima e, por desconhecerem o resto da história, provavelmente dirão que ela só estava à procura de cerejas para incrementar a nossa relação. Eu até concordaria com vocês caso ela não tivesse agido de maneira parecida à descrita no diálogo inúmeras outras vezes e se ela não tivesse feito cara de “que programa de índio, mate-me, por favor!” sempre que estávamos a sós em algum local sem pirotecnias, Dalí original pendurado em alguma parede e porções temperadas com azeite trufado.

Porém, graças à namorada que eu tenho hoje – aquela que se mostra feliz por estar ao meu lado mesmo quando não há nada além de nós, que manteve o sorriso no rosto até mesmo quando nos vimos condenados a comer pão com cream cheese em plena ceia de Natal e que acha ótimo quando varamos a noite apenas papeando – eu finalmente entendi a enorme diferença entre “ter uma companhia vazia” e “ter uma companhia para suportar qualquer vazio”. Ainda não sabe em qual das categorias anteriores o seu parceiro se enquadra? Simples: tranque-se com ele, por algumas horas, em um quarto vazio, sem televisão ou qualquer outro tipo de distração. Se o tempo que passarem por lá parecer uma espécie de tortura, desista; porém, se a experiência for boa, saiba que você está ao lado do cara certo e que qualquer complemento (de rafting ao molho barbecue) que optarem por incluir entre vocês, só somará, mas nunca se tornará essencial a ponto de colocar o amor de vocês em cheque caso seja removido ou esteja em falta no mercado.

A namorada parceira, de verdade, é aquela que sorri quando é convidada para não fazer nada, só com você. E sabe o que fará com que ela diga “sim” ao seu convite? Você!

Quando estamos com alguém que amamos de verdade, até fila uma de banco quilomêtrica pode se tornar um local especial.






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