Quando eu era bonita

Envelhecer é uma ofensa? São muitos os mitos e tabus a serem vencidos acerca do envelhecimento: a autoaceitação é um deles.

 

“Quando eu era bonita eu trepava com Deus e o mundo. Hoje eu trepo com quem aceita”.

A frase acima faz parte da tragicomédia “Quando Eu Era Bonita”, de Elzemann Neves, em cartaz no Espaço Parlapatões (SP).

Com um humor bastante ácido, inteligente e desprovido de qualquer tipo de eufemismo, as atrizes Ester Laccava e Lulu Pavarin apresentam ao público o difícil movimento de perceber (e aceitar) o envelhecimento feminino, bem como a incômoda sensação de perecividade que toda mulher enfrenta ao chegar à menopausa.

Falar sobre o envelhecimento numa cultura que cultua a juventude eterna? Só se for para trocar dicas de cremes anti-âge e alimentos ricos em antioxidantes.

O assunto é tão espinhoso (e tabu) que acaba sendo relegado ao terapeuta ou, quando muito, à melhor amiga da mesma idade.

“Quando Eu Era Bonita” se torna transgressora justamente porque joga luz nesse efeito colateral da vida: o envelhecimento.

É o tipo de comédia que nos faz rir de nervoso, vergonha e/ou pena da humanidade (de nós mesmos). Embora fale de questões femininas, está longe de ser “papo-calcinha”. Trata-se de uma crítica social bastante afiada ao culto à beleza e à juventude eterna.

Nota: Laccava e Pavarin nos conduzem ao clímax da história (um bate papo alcoolizado de duas amigas cinquentonas numa festa de fim de ano da empresa) com admirável talento e precisão; seguras e bem dirigidas por Neves, elas demonstram entrosamento e total domínio do texto e de suas personagens.

Como é que eu explico para as pessoas que eu ainda sou linda”? – pergunta uma das personagens.

Não explica, querida. Na nossa cultura envelhecer é uma ofensa. Vide os ataques que a rainha do pop, Madonna, vem sofrendo nas redes sociais, vide imprensa marrom que faz questão de apresentar divas sem maquiagem para mostrar que elas têm rugas e manchas, etc, etc, etc.

Velha. Idosa. Representante da melhor idade. Ageless. Eis a evolução semântica daquilo que ninguém quer falar. Este último termo foi inventado pela indústria da beleza e da moda para designar (acarinhar) as mocinhas que passaram dos cinquenta anos, mas, obviamente, continuam ativas, altivas, sonhadoras, etc e tal como sempre foram (numa tradução livre: “mulher sem idade”).

A palavra “ruga” também está obsoleta. Ruga tinha a vovozinha, nós temos “uma pele madura”. Como se o sumiço da palavra fosse fazer desaparecer “o problema”, ou melhor, a geografia da nossa história estampada em nosso rosto.

Os tempos são outros. Thank God. Julia de Balzac não representa mais a mulher de 30, 40, 50 ou 60 anos, é apenas uma princesa com vestidos e cabelos mais feios que os da Cinderela, uma fábula de Honoré.

Passar as tardes assando bolo para os netinhos, como acontecia com as nossas avós e bisavós, não é mais um destino e sim uma opção. Ufa.

No entanto existe muito caroço nesse angu, muitos mitos e tabus a serem vencidos acerca do envelhecimento feminino – a começar pela autoaceitação.

Ao que tudo indica há um movimento (tímido) acontecendo nessa direção. A peça de Elzemann Neves é uma prova disso, bem como a exposição Decanos, de Armando Prado, em cartaz na galeria Nikon (SP), e as edições de maio das revistas Vogue e Elle Brasil, que trazem matérias interessantes sobre a passagem do tempo.

Se esse movimento está sendo impulsionado pelo mercado – que acordou para o fato de que a expectativa de vida aumentou, assim como o poder de consumo da chamada geração “baby boomers” – ainda não temos como avaliar. O que se sabe é que “uma pesquisa do Bank of America mostra que em 2020 quem tiver 60 anos ou mais estará movimentando 15 trilhões de dólares no mundo” (revista Elle/maio) e que de olho nessa tendência marcas famosas estão apostando em campanhas com “musas ageless”: Joan Didion, na Céline, Joni Michel, na Saint Laurent Paris, Helen Mirren, na L’Oréal.

Seja lá porque motivo for, a quebra do silêncio é para lá de bem vinda. Falar sobre um tema é desmistificar esse tema.

Torço para que chegue um dia em que envelhecer seja apenas o contrário de morrer e não uma ofensa.

quando eu era bonita -  joao caldas.jpeg

 

FONTEObvious Mag
COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS