Quando ele foi embora

Eu sangrei, chorei e descobri partes do meu corpo que eu nem sabia que existiam. Cada pedacinho doía. Doía o dedo que não usava mais a nossa aliança, os fios de cabelo que não recebiam mais o carinho dele e o meu sorriso, que ele dizia que era tão lindo. Quando ele foi embora sem verdade no olhar, e muito menos nas palavras, eu só sabia transbordar de mim em lágrimas.

Não tinha espaço pra tanta dor, não tinha hora pra descansar. Doía, doía. Eram remédios para acordar e dormir.

Quando ele foi embora e passou por aquela porta, essa mesma porta que eu olho agora, foi uma parte importante de cada sonho que eu tinha indo embora também.
Cada expectativa que guardei pra mim, sem promessa alguma de mais ninguém, mas ele parecia tão perfeito para cada uma delas que entreguei tudo a ele. E ele partiu, se perdeu pra nunca mais voltar.

Sabe aquele tipo de coisa que a gente tem certeza que não acontece de novo?

Podem dizer que uma hora o machucado sara, uma hora a ferida fecha ou pelo menos só para de sangrar, embora fique a cicatriz. Mas insistem em dizer que ainda vai dar certo. Só que não vai, não vai não. O monstrinho dentro de você tem certeza que não vai dar certo como planejado. Ele fala bem baixinho pra você não acreditar a cada nova tentativa que faz.

E nem se ele voltasse, eu me encontraria.
Levou embora a pureza, a menina. E menina no meio do mato, cê sabe, quando a gente perde fica difícil de encontrar. Menina tem que sempre andar de mão dada com alguém ou podem levar embora. E a minha ficou perdida, no meio do nada, no meio de tudo o que não conseguiu entender.

No lugar da pequena inocência que existia aqui, nasceu uma mulher – que esconde qualquer fragilidade que possa se deixar levar.

E por fim,  quando ele foi embora, não levou só uma parte – levou tudo de mim.
Mas me deu a oportunidade de me reinventar, porque vítima não é uma fantasia que eu costumo usar.

FONTEDeu Ruim
TEXTO DEThais Dorigon
COMPARTILHAR





COMENTÁRIOS