Possessividade maligna

Sempre achei que possessividade era uma besteira, até conhecer a força que essa “doença” tem. Nos conhecemos num momento feliz e tranquilo e eu a subestimei. Ela foi ganhando força e acabou por destruir tudo de lindo que vivi com ele. Ela foi mais forte que eu, ele e nosso amor. Ela veio devastadora e arrasou com tudo em poucos meses. Chegou de mansinho e de mãos dadas com a insegurança dele. Acabou por matar o amor, o respeito e a confiança. Ela é implacável. Cuidado! Se a encontrar corra sem olhar para trás.

Eu e o Marcio nos conhecemos e foi amor à primeira vista. Nos demos bem de cara e as coisas estavam caminhando tranquilamente. Ele era levemente ciumento, mas não chegava a ser um problema, eu até achava engraçadinho. Com o passar o tempo as coisas foram piorando, as ligações e mensagens aumentando e eu já não sabia como agir. Estava amarrada numa teia enorme e não conseguia mais respirar sem medo.

Ele criou uma prisão emocional que não me permitia viver nada além do que era razoável para o nosso relacionamento. Com a desculpa do amor incondicional ele anulou e escravizou minha personalidade e meus desejos. As gentilezas eram oportunistas e o cerco foi apertando. Ele tentava me enfraquecer a todo custo para que eu perdesse minha individualidade e fui me entregando sem forças para lutar contra.

Ele me perguntava, questionava e exigia explicações para qualquer coisa ou momento. Eu, com medo e tentando evitar conflitos, fui cedendo e dizendo sim para todas as exigências malucas que ele me impunha. Eu tentava apagar as diferenças e acabava criando muitas outras. Nada do que eu falasse ou mostrasse para ele eram suficientes para que confiasse e acreditasse no meu amor. Eu sentia que ele tinha se tornado meu dono e não mais meu companheiro.

A possessividade dele foi me castrando e afastando tudo e todos de mim. Ele era rude com meus amigos e familiares. Chegava a armar barracos e escândalos nos momentos de descontração sob o pretexto de que era sincero e falava as verdades. Ele alegava que dizia apenas o que sentia e que as pessoas deveriam respeitá-lo e admirá-lo por isso.

Sem perceber eu estava pedindo permissão para ligar para minhas amigas, para comer uma pizza com meus primos e até para trocar ou não de emprego. Tudo dependia de relatórios minuciosos e relatos detalhistas e na maioria vezes nada o satisfazia. Era impossível conquistar sua confiança e minha tão sonhada liberdade.

A castração era tamanha que eu já não sabia mais quem era ou o que queria. Eu vivia a cartilha que ele me impunha e fui me perdendo de mim mesma. Abandonei amigos, festas, sonhos, momentos, histórias e o amor próprio. Acreditei que não podia mais viver sem a coleira invisível que ele havia colocado em mim. Eu estava completamente perdida e confusa.

Aos poucos fui percebendo que não era mais feliz. Nem no relacionamento, nem no trabalho, nem em casa, nem com os amigos e muito menos sozinha, comigo mesma. Como eu tinha permitido que ele me controlasse tanto? Até meus pensamentos e ideias estavam caminhando de acordo com o que agradaria aquela possessividade maldita. Eu estava presa emocionalmente e precisava me libertar. Ele já tinha destruído o amor e evacuado meu coração. Não restava mais nada e eu precisava resgatar minha individualidade.

A possessividade é perigosa e não tem nenhum lado positivo. Não importa o ângulo ou a perspectiva. Ela castra e anula qualquer nuance de vida própria e é mortal. Não tem saída, ela não deixa escapatória ou brecha para o amor e a confiança.

Agora, livre e consciente do que ela fez, posso retomar minha vida e tentar restabelecer tudo que me foi tirado. Volto a ser eu mesma e jamais permitirei que alguém delete minha personalidade do meu HD interno. Com minha carta de alforria serei mais eu e menos ela.

Escrito por Monika Jordão, colunista do Sábias Palavras

Escritores4-01

FONTESábias Palavras
TEXTO DEMonika Jordão
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