Por que estamos colorindo livros?

Por que estamos colorindo livros?
Por: Diogo Freitas Ramos
Publicado originalmente da Revista Bula.

Basta procurar “Jardim Secreto” no Instagram para compreender o fenômeno: mais de 50 mil publicações de fotos de livros para colorir em andamento ou concluídos. Para um desavisado pode parecer que o Instagram foi tomado por crianças ou que, por um milagre, instaurou-se um grande movimento artístico. A segunda afirmação parece ser a mais apropriada.

O sucesso desse novo segmento de livros, conhecidos como “livros de colorir”, se deve, principalmente, a dois fatores que são antagônicos entre si: o jogo lúdico (a válvula de escape, o efeito antiestresse) que nos foi tirado na escola, e o medo do não pertencimento a um grupo ou tendência, que por sua vez traz em suas veias o sentimento de disputa.

Fomos e somos educados numa sociedade onde a disputa forma a base do nosso aprendizado. Somos incentivados sempre a vencer, a ser o melhor dentro de uma estrutura onde são avaliados conhecimentos técnicos, sem levar em consideração as habilidades reais e profundas de cada indivíduo.

O artista Allan Kaprow — precursor do conceito de performance na arte contemporânea — a esse respeito escreveu: “Os estudantes competem por notas, os professores por classes bem comportadas, diretores por orçamentos mais altos. Cada um realiza o ritual da disputa de acordo com regras estritas, algumas vezes com arte, mas permanece o fato de que muitos estão lutando por algo que apenas alguns podem ter: poder. Dado que a civilização vive para competir e compete para viver, não é por acaso que a educação na maioria das partes do mundo esteja profundamente envolvida em disputas de enfrentamento agressivo”.

Nessa busca pelo poder nos é tirada a oportunidade de descobrirmos nossas reais potencialidades, pois estamos aprendendo uma série de informações que possivelmente não nos serão úteis, enquanto aquilo que temos de único é esquecido. Somos educados como numa linha de produção em série. Ken Robinson, na preleção mais assistida do TEDX intitulada “As escolas matam a criatividade?”, afirmou: Estamos produzindo indivíduos desprovidos de criatividade.

A arte e o esporte são tratados nos bancos escolares meramente como matérias de segundo plano, do último degrau da escada hierárquica das disciplinas. As ciências são prioridades e ensinadas num método puramente teórico, sem aplicação prática para a vida do aluno. Dessa forma, afastamos a arte das nossas vidas. A escola nos tira a arte e desencoraja, portanto, uma carreira artística, nos impondo a disputa: o mérito como elemento de premiação e sucesso.

Crescemos crentes de que o segredo da felicidade é escolher uma boa formação universitária, que nos propiciará um bom emprego, que por consequência nos trará status, sucesso e muito dinheiro, mas quando alcançamos tudo aquilo que acreditávamos ser necessário para a felicidade plena, encontramo-nos novamente num vazio. Neste momento, as artes e a espiritualidade assumem um papel essencial como subterfúgio ou conforto para preencher este vazio: suprimir o lúdico que nos foi extraído na infância, assim, transportamo-las de volta ao nosso cotidiano adulto, já carente de criatividade.

E é possível conciliar a arte com a confusão e a disputa acirrada dos nossos dias atuais?

De uma só vez o ato de colorir livros (para depois publicá-los nas redes sociais) cumpre o seu papel de incorporar a arte, o jogo lúdico, ou “jogar-brincar”, como define Kaprow, para a nossa rotina, mas trazem consigo a disputa quando o fazemos somente pelo sentimento de pertencimento a um grupo, correndo o risco de, quando não fazendo o que todo mundo faz, parecermos desatualizados ou fora de moda.

A disputa se insere na rede social e, por consequência, na vida do usuário quando este busca manter um laço estreito com aquilo que vê e acredita ser o seu ideal, repetindo atitudes e maneiras de pensar sem considerar as consequências. O sociólogo Zygmunt Bauman — sobre essa necessidade do “ser visto” — assim diz: “Já há algum tempo a famosa “prova de existência”, de Descartes, “Penso logo existo”, tem sido substituída e rejeitada por uma nova versão atualizada para a nossa era da comunicação de massas: “Sou visto, logo existo”. “Quanto mais pessoas podem escolher me ver, mais convincente é a prova de que estou por aqui”. Ao tentar ser visto a todo instante, o jogar-brincar perde espaço para a disputa. E obviamente a disputa traz os malefícios que contradizem ao sentido próprio da brincadeira.

As publicações dos livros nas redes sociais podem servir para divulgação e incentivo das artes, entretanto, é preciso cautela para que os valores deste passatempo não se transformem na disputa que justamente tentamos fugir.

Não entrar na disputa (combustível essencial das redes sociais) talvez seja o caminho mais saudável para que não tornemos aquilo que nos faz bem no motivo do nosso desassossego. E, quiçá, que as artes possam fazer parte da nossa rotina e não apenas como um instrumento de fuga!

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