Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?

Durante grande parte da minha vida, tive a certeza – quase absoluta – de que não existia nenhuma espécie de justiça ou merecimento no mundo, principalmente quando eu me deparava com o sofrimento de uma pessoa boa. Eu simplesmente não conseguia compreender o porquê de uma coisa dessas: uma pessoa boa sofrendo o pão que o diabo amassou, enquanto o Universo parecia sorrir e estender as mãos para aqueles que nunca tinham feito nada de realmente bom para os outros e para si mesmos. Ou pior: que se compraziam em espalhar o mal. Que justiça era essa? Que merecimento era esse que parecia punir as pessoas de bom coração, ao mesmo tempo em que pegava leve e abria portas para os mentirosos, os falsos, os oportunistas e todos aqueles que celebravam as más intenções? Eu não sabia dizer, eu não conseguia entender, era difícil e doído demais aceitar ou simplesmente lidar com uma coisa dessas. Por que coisas tão ruins aconteciam com pessoas realmente boas? Qual era o sentido de tudo isso?

Na adolescência, testemunhei o sofrimento de uma das pessoas mais bondosas e nobres que já conheci na vida, desde a doença que a acometeu e que foi comprometendo seriamente seus movimentos e sua capacidade intelectual, até os seus últimos dias, inchada, intubada, inconsciente, na cama de um hospital. Eu olhava para aquela pessoa ali, antes tão animada e tão cheia de vida, e me perguntava por que é que o Universo, Deus ou como queira chamar essa força maior que há de existir em algum lugar havia permitido uma coisa daquelas. Por que não uma morte tranquila, em casa, durante o sono? Por que aquele sofrimento todo, que já se arrastara durante tanto tempo? Era difícil demais compreender uma injustiça daquelas. Simplesmente, não dava.

Eu olhava para o lado e via tantas histórias iguais… Pessoas boas, generosas, caridosas, cheias de vida, que passavam por verdadeiras provas de dor e sofrimento. Doenças graves, perdas significativas, acidentes sérios, traumas e todas aquelas coisas que a gente nunca acha que vai acontecer com a gente, justamente porque é difícil demais compreender a razão de tudo isso. E porque, a bem da verdade, o ser humano tem um quê de egoísta: contanto que a desgraça não me atinja ou não atinja aqueles que eu amo, tá tudo bem, mesmo que eu lamente pelo estranho que foi atingido.

Mas, por que comigo, por que eu, por que com a minha vida?

E por que não?

Afinal de contas, o que é que nós temos de tão especial assim para não merecermos passar por situações de prova e sofrimento? Será que a nossa bondade é tão boa assim a ponto de não precisarmos aprender mais nada com aquilo que nos acontece na vida, seja essa situação boa ou ruim? E quem somos nós para julgar o merecimento de quem quer que seja?

Nossas mentes são rápidas demais nos julgamentos que fazem. Prepotentes, muitas vezes não conseguimos enxergar a grande lição por detrás das nossas aparentes desgraças na vida. Quem saberá dizer se aquela coisa aparentemente ruim e terrível não foi, na verdade, a melhor coisa que nos aconteceu em termos de aprendizado, transformação e evolução espiritual?

Se você parar para refletir, verá o quanto aprendeu sobre a sua própria força e o quanto amadureceu depois de ter passado por certas situações na vida.

Sobre o que aconteceu comigo

Existe uma frase que diz que viver, antes de qualquer coisa, é aprender a ler entrelinhas. De alguma forma, é isso mesmo que a vida quer de nós: um pouco de sabedoria para lidar com aquilo que os nossos olhos ainda não conseguem ver. E uma boa dose de coragem para arriscar sem medo de errar, até porque, ninguém sabe realmente o que virá pela frente.

O futuro é uma incógnita, por mais bonitinho e arrumadinho que ele possa parecer. De uma hora para outra, tudo pode mudar. Mesmo.

Há alguns meses, comecei a enxergar embaçado e embaralhado. Num primeiro momento, fui tomada por um medo muito grande. Chorei. Entrei em desespero. Logo eu, que tanto falo em manter a calma, que tanto defendo a aceitação, a entrega, a gratidão e a confiança nas leis do Universo. Logo eu, a “escritora motivacional”, a coach de vida, a palestrante zen que acredita que está tudo certo do jeito que está, porque tudo tem um motivo e uma razão de ser. Logo eu, diante da visão embaralhada e embaçada, entrei em PÂNICO.

Naquele momento, tudo o que consegui pensar foi na possibilidade de ficar cega. E nas várias perguntas que costumam invadir a nossa mente sempre que uma situação difícil e dolorosa se apresenta de repente: “Por que comigo? Por que eu? E agora, o que eu vou fazer?”.

Eu queria trabalhar, eu queria escrever, eu queria responder às dezenas de comentários e e-mails que já estavam acumulados na Fanpage, na caixa de entrada, no inbox… Mas eu não conseguia! A visão embaralhava. O medo me acometia. E um sentimento de tristeza profunda começou a tomar conta de mim.

Até que eu percebi o seguinte: o meu maior problema não estava nos olhos do corpo. Eu ficava tão concentrada nas perdas e na não aceitação daquilo que eu considerava não merecer, que me cegava para as oportunidades preciosas de transformação e aprendizado que aquela situação podia me proporcionar. Que tipo de aprendizado eu poderia ter se simplesmente me abrisse para a situação ao invés de resistir a ela? O que aquela situação tão difícil e dolorosa para mim queria me mostrar sobre os outros e, principalmente, sobre mim mesma?

Que tipo de fé era aquela que, ao ser testada, vacilava daquela maneira? Eu acreditava ou não acreditava nas coisas que eu tanto falava?

“Entrego, aceito, confio e agradeço”.

Lembro-me direitinho de um dia em que, zapeando a televisão sem muito interesse, minha atenção foi despertada pela gargalhada de uma mulher que parecia carregar com ela toda a alegria do mundo. Ela usava batom vermelho, vestido longo e florido e, por debaixo do lenço estampado, dava pra ver que ela estava careca. Seu nome? Já não sei mais. Mas jamais vou me esquecer de como ela sorria ao falar da própria vida. E da forma absolutamente positiva e serena com que encarava a situação difícil pela qual estava passando. “Não é uma luta contra o câncer, sabe? Eu não estou aqui lutando contra nada, porque, se ele veio, é porque tem algo a me ensinar. A minha luta é a favor da vida. E por ela que eu luto”.

E qual é a sua luta?

Entrego. Se essa situação está acontecendo comigo, é porque tem um motivo. E esse motivo é sempre para o meu bem.

Aceito. A vida sabe o que faz. Quantas não são as coisas que eu já estou aprendendo com essa situação? Não adianta revolta, não adianta culpar o mundo. Se isso está acontecendo comigo, é porque tinha que ser.

Confio. O peso que a gente carrega é o peso que a gente aguenta carregar. Eu acredito piamente que vai dar tudo certo, porque tudo já está certo do jeito que está. Eu confio nas leis do Universo. Eu confio em quem realmente me ama e me quer bem. Eu confio na minha força e na minha capacidade de melhor lidar com toda e qualquer situação que eu tiver que enfrentar na vida.

Agradeço. Porque as grandes oportunidades de transformação e evolução espiritual só se apresentam para quem já tem condições de aprender com elas. Não adianta presentear com um livro, por mais rico em conteúdo que ele seja, aquele que ainda não sabe ler.

Paciência. Autoamor. Autocuidado. Talvez, no caso do meu problema de visão, tenham sido essas as lições que eu precisei apreender com ainda mais força, mais verdade e mais carinho.

Por amar demais o que eu faço, não percebi o quanto eu estava cansada e me exigindo demais. Eu trabalhava, trabalhava, trabalhava e, quando me dei conta, pronto, veio a vida me dizer o seguinte: diminua esse ritmo, garota! Porque você é só um ser humano! Pare de carregar o peso do mundo nas costas e olhe um pouquinho mais pra você!

Essa foi a minha primeira lição.

O que os seus olhos não estão conseguindo ver?

Às vezes é preciso enxergar as dificuldades que porventura estamos enfrentando na vida com outros olhos. E entender que, de repente, as coisas precisam dar muito errado antes – mas muito errado mesmo! – para darem infinitamente mais certo depois. A grande sacada da vida está na sua própria dualidade: se não existisse o ruim, como é que a gente saberia reconhecer e, sobretudo, valorizar o bom? Claro e escuro. Frio e calor. Tudo o que existe no Universo só existe porque existem também os seus contrários.

Qual é o lado bom disso que está acontecendo com você? O que essa situação quer te ensinar? Pelo que você pode ser grato a ela?

Tudo o que você está vivendo agora é exatamente o que você tem que viver agora. E a prova mais acertada disso é que, se não fosse para ser, não seria. Simples assim.

Não há acaso nem aleatoriedade nas leis do Universo. Está tudo certo do jeito que está, de modo que se algo de ruim aconteceu ou está acontecendo com você, é porque esse algo traz com ele uma grande lição que precisa ser aprendida.

Abra espaço no seu coração para que esse mal aparente te transforme numa versão ainda melhor de você mesmo. Nem sempre precisa ser sofrido, mas, se tiver que ser, experiencie e respeite o seu sofrimento, para que, então, você possa aprender com ele. E agradecer.

Depois de dar muito murro em ponta de faca, entendi o seguinte: as coisas não acontecem comigo. As coisas acontecem para mim. Porque, independentemente do que forem, há sempre o que aprender com elas.

FONTEAna Paula Ramos
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